#21DiasAtivismo – Coletivo de Entidades Negras debate violência de gênero com policiais militares

 

“Ele nunca me agrediu, só me xinga as vezes mas, durante esses 13 anos, ele nunca me bateu. Quero que ele saia da minha casa e ele não quer sair”, relata C.S, que estava na Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM), em Periperi na manhã desta terça (29).

O relato dela é o de muitas outras que chegam à linha de frente do atendimento às vítimas de violência doméstica – seja em ocorrências atendidas nas Delegacias ou pela Ronda Maria da Penha, criada em 2015 no âmbito da Polícia Militar da Bahia.

Para capacitar agentes policiais quanto aos tipos de violência contra a mulher, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) esteve na Deam de Periperi neste dia, para falar com policiais sobre o tema. Na ocasião, a coordenadora de Gênero do CEN, Iraildes Andrade, falou de violência psicológica, sexual, patrimonial e moral – cujas características ainda são desconhecidas por muitas mulheres.

A ação integra a Campanha dos 21 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher, encabeçada, em Salvador e Região Metropolitana, pelo CEN, em parceria com o Instituto AVON. A Campanha segue até dia 10 de dezembro, já tendo realizado atividades junto a mulheres em situação de cárcere, intervenções em espaços públicos com distribuição de materiais informativos. As ações seguem durante a semana, veja aqui. Na ocasião, a Ronda Maria da Penha integrou seu projeto “Papo de Homem” à Campanha, reunindo seus policiais para a formação.

16 dias de ativismo
Foto: Suzana Batista

O objetivo foi educar para a prevenção à violência doméstica e familiar, para que eles tenham o conhecimento das cinco formas de violência a que a mulher é vitima. A Ronda, comandada pela Major Denice Santiago, já vem acontecendo em outros municípios como Piritiba, Riachão de Jacuípe.

“Nós temos uma preocupação aqui na Ronda de atender a tudo que se configure a Lei Maria da Penha. Pela prática, nós percebemos que quando a Ronda também conversa com o agressor, ela explica para ele a medida protetiva e dialoga sobre sua violência. Aqui, o agressor tende a compreender mais a necessidade de seu afastamento da companheira (ou ex)”, explica major Santiago.

A violência não é só física

A violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral são as formas mais comuns de violência contra a mulher e são essas violências que a Ronda Maria da Penha vem tentando impedir que aconteça com tanta frequência.

 A denunciante que citamos no início deste texto, por exemplo, é retrato do que os policiais da Ronda Maria da Penha relatam, quando questionados sobre dificuldades neste tratar: lidar com a falta de informação dessas vítimas quanto ao que é violência. No caso, averiguado pelos policiais, ela sofre de dois tipos de violência: a moral e a patrimonial, uma vez que seu companheiro se nega a sair de sua casa, ameaçando seu patrimônio.

ronda maria da penhaFoto: Suzana Batista

A capitã Ana Paula Queiróz, subcomandante da Ronda Maria da Penha, fala sobre esta atuação. “O crime de violência doméstica é perpetuado pela cultura. Para além de atender à demanda dessas mulheres, a Ronda tem o compromisso de instruir as pessoas sobre o que são estas violências e como as mulheres podem não sofrê-las, não figurem como vítimas. É também para os homens, para que eles não comentam se tornem agressores”, explica.

“Os policiais foram receptivos à temática. Ouvimos relatos sobre patriarcado, cultura de machismo, de se colocar no lugar da mulher e entender suas dificuldades, o que nos deu a certeza de que há jeito de transformar a realidade que ainda encontramos, que é a da falta de acolhimento relatada pelas mulheres vítimas de violências. Eles são a porta da frente para elas, elas precisam enxergar nesta farda que há alguém do outro lado que pode ajudá-las. De eles estiverem conscientizados disso, sensibilizados, já teremos avançado”, afirma a coordenadora de Gênero do CEN, Iraildes Andrade. 

Estima-se que, no Brasil, cerca de 2 milhões de mulheres sofram agressão a cada ano e a Lei Maria da Penha descaracteriza esta agressão enquanto crime de menor poder ofensivo, punido com multa ou cestas básicas, tornando-a crime com pena de 1 a 3 anos de prisão. Além disso, o judiciário pode obrigar o agressor a participar de programas de reeducação ou recuperação.

Para o Cabo Djair, que é um dos primeiros integrantes da Ronda Maria da Penha, fazer parte desse projeto é muito importante ainda mais sendo homem. “Uma coisa que vem do patriarcado, uma coisa bem antiga de criar o homem com a bola, criar mulher com essa separação, essa falta de explicação de gêneros. Criou-se essa dificuldade hoje da aceitação masculina com relação à compreensão sobre a mulher e suas necessidades. Hoje, muitos homens não veem a mulher com a igualdade que elas merecem, mas a gente está tentando desconstruir isso”, afirma.

As ações do CEN na Campanha dos 21 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher – em parceria com o Instituto AVON – continuam em Salvador, Simões Filho e Lauro de Freitas. 

Fonte: http://portalsoteropreta.com.br/21diasativismo-coletivo-de-entidades-negras-debate-violencia-de-genero-com-policiais-militares/

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