A democracia na corda bamba ou os profissionais da violência.

*Por Marcos Rezende

Lendo as notícias sobre o candidato a presidente e a vice presidente da extrema-direita e o pensamento deles acerca do que ele chamaram de “herói” Carlos Brilhante Ustra e conectando-o ao DOI-CODI e aos horrores da ditadura, arrepiei como se estivesse lá.

Sabedor das diversas atrocidades faço questão de transcrever uma passagem do artigo Profissionais da Violência escrito por Eliane Brum e publicado no site do El Pais de hoje, dia 11 de setembro. Segue trecho abaixo:

“Sempre vale lembrar ao menos um episódio entre as tantas mortes e torturas ordenadas ou executadas pelo “herói” de Bolsonaro e de Mourão. O torturador Ustra levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos infligidos em várias partes do seu corpo e também nos seios e na vagina. Este é o farol de Bolsonaro e Mourão”

Propositadamente repito o arrepiei como se fosse comigo, com os meninos do grafitti, do pixo, da geração tombamento, das pessoas periféricas e tantas outras identidades desse povo de pele preta que é a representação coletiva e cotidiana do medo. Os indesejáveis da nação. Incorporados como “os outros”, “os petistas”, “os comunistas” “os necessitados do bolsa família”, por fim, a causa imediata da “ruína do Brasil”, que dão sustentação aos crimes de corrupção dos Petralhas ao apoiar a política dos corruPTos e serem seus principais beneficiários. Esses sujeitos vistos tal qual ignorantes políticos e tratados como “trastes nordestinos” que apoiaram e apoiam um operário cachaceiro e analfabeto em troca de cotas e demais políticas sociais a exemplo do minha casa minha vida e do bolsa-família, política essa renomeada pelos reacionários de “bolsa-esmola”.

Uma das facetas que conceituam o fascismo é a criação de dicotomias e apresentação de soluções simples para equações complexas daí a cruzada moralista “em nome de Deus e contra a corrupção”, nacionalista com os jargões “minha bandeira nunca será vermelha” e resoluções simplistas para qualquer tema em debate. Na visão dos fascistas a solução para a violência e criminalidade são as armas, o encarceramento e a redução da maioridade penal. Para a questão dos imigrantes é fechar as fronteiras e por aí vai. Não apresentam nem debatem propostas, apenas acusam, esbravejam e apontam o dedo como se o mesmo fosse uma varinha de condão com a capacidade de solucionar todas as mazelas que nos afligem. Destroem as estruturas sociais coletivas e trabalham com o indivíduo em meio a desesperança “não vote nos partidos mas nas pessoas” e seguindo um roteiro simples mas didático e de fácil compreensão criam seus “mitos e heróis” que nos tirarão dos escombros e trarão a redenção nacional.

No fundo, não podemos ter dúvidas de onde essa onda vai parar e como vai nos engolir a todos. Por isso parabenizo a quem tem tido a coragem em se manter a esquerda, em colocar praguinhas no peito e/ou nas portas e janelas de casa, adesivar o carro, vestir a camisa e enfrentar os golpistas com discernimento, altivez, vanguardismo e coragem política.

Tenho questionado os golpistas fascistas em todos os grupos que os encontro, seja os da vida real ou nas redes sociais. Nada é mais importante e urgente nessa quadra histórica do país do que resistir, lutar, defender um projeto popular e eleger quantos políticos de esquerda forem possíveis.

Todo o resto pode e deve esperar.

O artigo para a publicação acadêmica, o livro sobre políticas públicas para os Terreiros, mulheres, negros, LGBT’s, a compra da casa, do carro novo, o verde depois da chuva no sertão, o casamento, a praia do final de semana, a festa de aniversário das crianças, tudo isso é muito importante mas pode e deve esperar porque não existe futuro no fascismo. Lá não cabe nada dos elementos acima citados, e sim, e tão somente a mediocridade da vida diária.

A labuta diária rumo a construção da própria infelicidade frente ao lucro do patrão, o sorriso tosco no rosto, a piada possível, a sobrevivência diária, a desgraça da vida. Vida essa que passa a ser regida pelo medo, pelo silêncio, não o silêncio reflexivo, contemplativo, mas o impositivo, assustador, que se apresenta ao evitar o diálogo a fim de suprimir a possibilidade de expressar ideias e pensamentos na busca insistente de não criar “provas ou ressuscitar esqueletos” que recaiam sobre si ao dobrar a esquina.

Esse silêncio imposto pelos “bons modos”, mas não falo dos bons modos enquanto o “bom dia” sorridente ao entrar no ônibus ou o “obrigado” ao comprar o pão na padaria, mas os “modos dos bons”, daqueles que se intitulam e se colocam como a encarnação da representação formal da sociedade, dos que se vêem como guardiões da moral coletiva, como a possibilidade de apresentar que sim, é possível ser daquela maneira apresentada nas paradas e desfile militar ou nas alas mais retrógradas da igreja ou no lema: “Deus, pátria e família”. Todavia, isso só é possível se você tiver a capacidade de engolir ou esquecer essas baboseiras constitucionais de luta por direitos e incorporar os elementos normativos da “pátria acima de tudo e Deus acima de todos”, mas somente se você possui o requisito, a senha, e assim te inserem no pequeno círculo de acesso a um mundo arcaico de possibilidades ao poder, tanto material quanto no reino dos céus.

Essa é a quadra histórica em que estamos. Onde um candidato a presidência da República exalta os porões da ditadura e o seu vice fala em autogolpe, onde um comandante das forças armadas concede entrevista falando que o resultado das eleições podem ser questionadas e como o exército pode se comportar frente a isso. Existe, por fim, a possibilidade assustadora de tirar esse esqueleto do armário e restitui-lo ao lugar onde nunca deveria ter “estado”.

Sim, também é verdade que não podemos perder a esperança. O fascismo e o terror se retroalitentam e também se alimentam do medo alheio. Por isso cabe a cada um de nós aproveitar cada momento para alertar aos parentes, amigos, vizinhos e todas as demais pessoas sobre onde estamos, como chegamos até aqui e quem é que perde com tudo isso.

Fruto dessa luta, em um futuro muito em breve, um novo dia de sol resplandecente seguido por uma brisa sorrateira há de te arrancar um sorriso matinal. Decerto pode ser um gesto singelo de agradecimento da democracia restaurada.

*Marcos Rezende é ativista social, graduado em História e Mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela UFBA, além de fiel do Candomblé.

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