A mulher negra que mudou a ciência para sempre (e não foi reconhecida)

A dura vida de Henrietta

Loretta Pleasant nasceu em Roanoke, Virginia, nos EUA, em 1 de agosto de 1920. Mais tarde, mudou seu nome para Henrietta.

Henrietta perdeu a mãe quando tinha apenas quatro anos, sendo abandonada por seu pai, junto com seus nove irmãos, logo depois. As crianças foram distribuídas e a garota foi morar com seu avô materno, Tommy Lacks. Ele já estava criando um neto, David “Day” Lacks, abandonado pela tia de Henrietta nove anos antes.

A menina frequentou uma escola segregada para afro-americanos, mas na sexta série abandonou os estudos por ordem do avô para trabalhar nos campos de tabaco que seus antepassados escravizados um dia também trabalharam.

Apenas alguns meses após seu aniversário de 14 anos, ela e Day tiveram seu primeiro filho, Lawrence. Quatro anos depois veio Lucile Elsie, que sofria de epilepsia e problemas de desenvolvimento. Em abril de 1941, Henrietta e Day casaram-se e mudaram-se para um subúrbio de Baltimore, onde tiveram mais três crianças.

A doença e a ciência

Pouco antes de sua gravidez final, Henrietta começou a ter dor vaginal durante o sexo. Essa dor só se intensificou após o nascimento do último filho, Joe.

Quatro meses depois, a pobre mulher encontrou um “nó” do tamanho da ponta de seu dedo mindinho em seu colo. Seu marido a levou para o Hospital Johns Hopkins, o único de Baltimore que atendia afro-americanos em 1951.

Em janeiro, Henrietta foi diagnosticada com câncer de colo uterino; em 6 de fevereiro, foi ao Johns Hopkins para o seu primeiro tratamento com radiação. No entanto, antes da terapia, um cirurgião tomou duas amostras de seu colo, uma de tecido saudável, outra de tecido canceroso. Henrietta não sabia que amostras seriam tomadas, e nunca deu permissão para que elas fossem utilizadas. Naquela época, isso não era exigido por lei.

54e0360203388.imageO que fizeram com as células de Henrietta?

Richard TeLinde, chefe de ginecologia na Universidade Johns Hopkins, estava estudando o câncer em 51. Por isso, ordenou a seus médicos que colhessem rotineiramente células saudáveis e cancerosas durante procedimentos ginecológicos. Ele entregava essas amostras a George Gey, chefe de pesquisa de tecidos da Universidade, para que ele tentasse cultivar as células em laboratório e estudá-las.

O problema é que as células sempre morriam. Sempre. Exceto as de Henrietta. Elas foram colocadas em tubos de ensaio com sangue de galinha e rotuladas de “HeLa” (as duas primeiras letras de “Henrietta” e “Lacks”). Em seguida, foram levadas a uma incubadora – e cresceram.

As células cancerosas dobravam de número a cada 24 horas e eram tão agressivas que se recusavam a morrer. O câncer de Henrietta tinha transformado suas células nas primeiras humanas “imortais” já cultivadas.

Como isso ajudou a ciência?

Esse foi um excelente progresso para o estudo de infinitas doenças e condições. Gey começou a contar aos seus colegas sobre HeLa, e pedidos de amostras choveram.

Jonas Falk, por exemplo, usou as células para desenvolver a vacina contra a poliomielite – o que, por sua vez, salvou (e ainda salva) a vida de muitas pessoas. As células de Henrietta também se tornaram as primeiras humanas a serem clonadas, em 1955. HeLa ainda permitiu aos cientistas finalmente identificar o número de cromossomos humanos como 46, em vez de 48.

HeLa pode ser exposta a radiação, infecções e toxinas em doses impossíveis com seres humanos vivos. HeLa pode ser bombardeada com drogas, a fim de encontrar algo que mate o câncer. Com isso, mais de 10.000 patentes já foram registradas usando HeLa e, a partir de 2001, cinco prêmios Nobel foram concedidos para pesquisas com células HeLa.

Todo mundo quer um pedaço de Henrietta, de forma que o Instituto Tuskegee produz as células em massa, enviando 20 mil tubos de ensaio a cada semana. Estima-se que, se todas as células HeLa usadas nos últimos 60 anos fossem amontoadas, esse monte pesaria 50 milhões de toneladas.

Mas e a coitada da Henrietta?

O câncer agressivo de Henrietta se espalhou rapidamente para quase todos os seus órgãos, de forma que ela morreu em 4 de outubro de 1951. Desde fevereiro haviam colhido seu tecido, mas ninguém do Johns Hopkins pensou em dizer para Henrietta o quão importantes suas células eram.

Seu marido e filhos só descobriram sobre HeLa em 1973, quando pesquisadores apareceram em sua porta querendo amostras de sangue. A família Lacks foi totalmente surpreendida ao descobrir a indústria multibilionária que surgiu para vender as células de Henrietta.

E, mesmo assim, a contribuição da mulher pobre e negra passou despercebida. Pior, os Lacks não têm nenhum direito sobre as HeLas, e nunca puderam sequer decidir como as células são usadas. Com todas as vidas salvas por Henrietta, sua família ainda vivia em extrema pobreza, incapaz até mesmo de ter plano de saúde.

Isso começou a mudar quando a BBC filmou um documentário sobre Henrietta em 1998. A família Lacks foi homenageada pelo Museu Smithsonian e pela Fundação Nacional para a Pesquisa do Câncer, nos EUA.

Mais tarde, em 2010, Rebecca Skloot escreveu a biografia de Henrietta, “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, e Oprah Winfrey comprou os direitos para fazer um filme sobre ela. Skloot criou uma fundação usando alguns dos recursos obtidos com seu livro para ajudar financeiramente a família Lacks e prestar cuidados de saúde para eles e, no mesmo ano, finalmente uma lápide foi doada e plantada no que até então era a cova anônima de Henrietta – a verdadeira heroína desconhecida. [KnowledgeNuts]

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