A Promessa Do Cinema Brasileiro Atual É Uma Diva Carioca. A Diretora Sabrina Fidalgo Esta Decidida A Mudar A Ordem Hierárquica E Social Do Cinema Brasileiro Atual.

 

Ao ver a diretora Sabrina Fidalgo não temos duvidas : estamos diante de uma verdadeira diva, como aquelas mulheres lindas e glamorosas dos anos 40, docinema noir. Batom vermelho, olhos esfumaçados, gestos ultra femininos e sorriso arrasador são alguns dos atributos da bela e jovem mulher negra que, graciosamente, enrola um cigarro de tabaco orgânico durante a entrevista : “ É tabaco puro e orgânico. Não contém aquelas 140 substancias desconhecidas, além da pólvora do cigarro normal, sabe?”, avisa. A fama de diva fica por isso mesmo. Na verdade, uma das maiores promessas do cinema, é uma workaholic. No ultimo dia 16 de julho, ela e sua equipe, retornaram a cidade de Cataguases, Minas Gerais, para a primeira exibição de seu sétimo filme, o curta “Rainha” – filmado na mesma cidade durante o ultimo carnaval – no Festival Ver e Fazer Filmes. O festival em questão exibiu os cinco curtas contemplados no edital doProjeto Usina Criativa de Cinema, uma inciativa voltada para ampliar e fortalecer as produções audiovisuais realizadas por talentos das cidades da área de abrangência do Polo Audiovisual da Zona da Mata de Minas Gerais.
O filme Rainha, foi contemplado na categoria diretor convidado e saiu da noite de estreia com 4 prêmios :

Melhor atriz (Ana Flavia Cavalcanti), melhor ator co-adjuvante (Marco Andrade), melhor figurino (Jerry Gilli) e melhor som (Vitor Kruter). Além do edital, o filme também recebeu patrocínio da empresa Energisa, o que viabilizou a produção, que foi fotografada em preto e branco pela fotografa e realizadora paulista Julia Zakia, e que conta a saga de Rita (interpretada por Ana Flávia Cavalcanti) uma moça que sonha em se tornar a rainha da bateria da escola de samba de sua comunidade. “É um carnaval P&B, atemporal e melancólico. Foi muito emocionante para o Iansamble assistir o filme pela primeira vez na telona. Agora o filme vai seguir sua carreira em festivais ”conta.

O grupo Iansamble, futuros projetos e parcerias artísticas.
“Iamsamble” (mistura do nome da orixá Iansã com a palavra “emsamble”) é como ela chama a sua equipe de atores e técnicos. Sabrina, tal qual vários grandes diretores (como Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino), decidiu trabalhar sempre com os mesmos parceiros em todos os proximos projetos. As atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Ana Chagas, por exemplo, atuaram em seu último curta, a festejada ficção-cientifica “Personal Vivator” (2014), estrelada por Fabricio Boliveira. “O Fabricio também é um Iansamble, e ficamos aguardando ele no set de Rainha até o último minuto na esperança de que a Globo o liberasse das gravações para ir a Cataguases filmar, mas, infelizmente, não deu”, revela ela não sem esconder uma pontinha de decepção pela ausência do amigo e parceiro no set do filme. Mas Fabricio (que acabou de filmar o papel titulo do longa “Simonal”) já é nome certo nas próximas produções da cineasta, a saber : o curta“Roberta Jackson”, no qual ela mesma assumira o papel de protagonista, e o primeiro longa de ficção, que ela não revela detalhes. “Meu foco agora são esses dois projetos. O curta vou filmar ainda esse ano e o longa esta no inicio do desenvolvimento e nada mais falarei sobre isso”, sentencia. Mas não é só isso.

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Sabrina, que é diretora da produtora independente Fidalgo Produções, tem outros projetos, como o o videoclipe do cantor Mombaça da musicaLugar de Fala” reunindo os maiores nomes femininos do samba, a peça de temática feminista “A Mulher Tartaruga” que escreve para as atrizes Ana Flavia Cavalcanti eBianca Joy Porte (ambas no elenco do filme “Rainha”, logo também “Iansambles”) da qual também ira dirigir e alguns projetos já mais antigos, como o do longa documentário “Cidade do Funk”, um inventário sobre a história do funk carioca, que aguarda apenas mais um parceiro patrocinador para ser finalizado. Além disso há ainda uma série documental sobre um dos maiores artistas da MPB (que ela não revela o nome nem sob tortura), sem contar projetos para a TV, videoclipes e colaborações como a que mantem com a atriz, cantora, compositora e amiga Thalma de Freitas, que, há 3 anos vive com a família em San Diego, na Califórnia, e, agora, nas horas livres, trabalha como voluntaria para a distribuidora de filmes Array da festejada diretora afro-americana, Ava DuVarney, do premiado longa “Selma”.

“Tenho muitos parceiros e gosto muito de trabalhar com meus amigos, com pessoas que eu já conheço, me identifico e amo. Agora mesmo estou envolvida com minha amiga Nega na programação do Cafofo”, diz. Nega, é a atriz e famosa promoter carioca Monica Assis, que agora também é a dona de um dos lugares mais concorridos do badalado Morro do Vidigal, o “Cafofo da Nega”. Entre outras coisas, há o projeto de organizar no Cafofo uma roda de leitura das peças do pai de Sabrina, o dramaturgo e ícone do Teatro Negro, Ubirajara Fidalgo, falecido há 30 anos. “No governo anterior o MinC lançou o projeto Ano Ubirajara Fidalgo e tínhamos varias ações culturais visando a promoção da obra dele na agenda. Mas com o advento do novo governo tudo ficou fora do ar, então decidi eu mesma arregaçar as mangas e fazer as coisas acontecerem. E a Nega, como uma artista sagaz e generosa que é, teve essa ideia, da gente usar aquele espaço (do Cafofo) como lugar de usina criativa para atores, atrizes, autores e artistas que queiram sair do lugar-comum. E também como um lugar onde nos artistas negros, como eu, ela, Mariana Nunes, Ana Flavia Cavalcanti, Fabricio Boliveira, entre outros, possamos nos expressar do jeito que a gente quiser”, explica.

Cinema, feminismo negro e racismo institucional nas artes
Sabrina esta no topo da cadeia da leva de novas realizadoras negras que vem sendo festejada nos últimos anos. E não é só isso. Ela é também uma das maiores promessas femininas do cinema nacional atual. Além de diretora e roteirista premiada, seus curtas já circularam por todo o globo em festivais e mostras em lugares que vão do Japão a Cabo Verde, passando por Itália, Honduras, U.S.A, Moçambique, Argentina, Portugal, Alemanha, entre outros. Mesmo assim, ela conta que o caminho não é fácil para uma realizadora negra no Brasil. “Se eu fosse uma diretora branca da panela do cinema autoral carioca, certamente eu teria muito mais notoriedade, meus filmes seriam muito mais comentados, resenhados, assistidos e fomentados. Essa é a realidade, por mais que a gente não queira ficar batendo o tempo inteiro nessa tecla. Mas é fato que o racismo institucional opera inclusive nas artes, inclusive no cinema, inclusive nos festivais de cinema, inclusive nos editais de cinema daqui”, revela. Apesar disso ela se diz esperançosa com o surgimento da primavera feminista que eclodiu no Brasil nos últimos 18 meses. E comemora o protagonismo das mulheres negras na questão do feminismo. “Não há como a gente querer falar sobre mulheres no Brasil a partir do ponto de vista da mulher branca e burguesa. Nós, mulheres negras, estamos em maioria absoluta e somos as mais negligenciadas ao longo de mais de 500 anos nesse pais. Nos representamos 51% da população feminina, estamos em maioria mesmo. Nos trabalhamos, estudamos, consumimos e, mesmo assim, somos invisíveis. Nos últimos 12 anos nenhuma mulher negra dirigiu, escreveu ou estrelou um longa nacional com distribuição nos cinemas ; você liga a TV no maior canal feminino e não vê uma mulher negra apresentando um programa sequer ou sendo entrevistada; passa numa banca de jornal e não vê uma negra na capa; vai numa FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty) e não vê nenhuma autora negra no casting; assiste um telejornal e não vê nenhuma ancora negra e por aí vai. Isso em um país de dimensão continental, onde 57% da população é composta por pessoas negras. E não era nem pra gente ficar questionando a presença de somente uma mulher negra em algumas dessas funções, era para já termos varias ao mesmo tempo atuando nessas grades. Isso tudo acontece em 2016, século XXI. Não da mais para se calar diante de uma politica abertamente segregacionista como a nossa, isso é apartheid puro. Se não mudarem já esse status-quo a gente boicota tudo, porque é o capital que fala, afinal, não é mesmo? Será que essas instituições sobreviverão sem o consumo dessa população toda?” questiona ela que foi convidada pelo Festival Internacional de Curta-Metragem do Rio de Janeiro, o Curta Cinema, para ser a curadora da primeira edição de 2016 do Cine Clube do festival que ocorreu no último dia 21 de julho, no Oi Futuro de Ipanema. O recorte proposto por Sabrina foi “Realizadoras Negras” e ela ainda mediou um debate com algumas das realizadoras após a sessão. “Quando falei que esse seria o tema, me perguntaram qual seria o segmento dos filmes. Eu pensei bem e decidi fugir da armadilha de os selecionar filmes de realizadoras negras que falassem apenas da temática racial. Porque é sempre isso que esperam da gente, saca? A gente não pode fazer comedia, ficção-cientifica, suspense, romance… não, a gente só pode falar de questões raciais e ponto. Tô fora dessas amarras! Somos artistas, podemos falar sobre o que a gente quiser e com quem a gente quiser. Nem todo negro é obrigado a ser militante. Um artista negro já é uma militância e resistência por si.

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Não somos obrigados a nada.” decreta. Uma das questões que incomodam a cineasta é a patrulha do próprio movimento negro. “As vezes eu vejo pessoas questionando o fato de algumas artistas não se posicionarem tanto ou de negarem terem sofrido tanto racismo como se espera. Para alguns ativistas você só pode ser legitimado se for de periferia, favelado ou pobre e se tiver mil vivencias de racismo ou uma historia triste para contar. Isso é um erro. Nem todo negro é de periferia, é favelado ou pobre, nem sofre racismo 24 horas por dia ou só tem historias tristes para contar. Cada vivencia é uma vivencia. Não vou inventar uma vivencia que não é minha só para agradar ativistas. A verdade é que a minha vida é maravilhosa”, diz. Com tantos projetos, filmes, entrevistas, participações em mesas e eventos sobra tempo para a vida pessoal? “Eu vivo tudo junto. Minha vida profissional se atrela a minha vida pessoal, porque trabalho com o que amo e com pessoas que eu amo. Então, a gente termina um trabalho e vai pra um bar, pra uma festa, viajamos ou já estamos na minha casa mesmo ou na casa de alguém.” conta. E o que a diva Sabrina espera do futuro? “Eu espero continuar tendo muita saúde para fazer tudo o que amo. E também quero namorar muito, ser mãe e formar a minha família. Já esta chegando a hora”, revela ela abrindo um sorrisão ensolarado.

Fonte: http://www.cidadedamidia.com.br/promessa-do-cinema-brasileiro-atual-e-uma-diva-carioca-diretora-sabrina-fidalgo-esta-decidida-mudar-ordem-hierarquica-e-social-do-cinema-brasileiro-atual-2/

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