“A redução de danos faz apologia ao respeito”

É provável que boa parte dos frequentadores dos festivais de música eletrônica do Brasil não conheça o psicólogo baiano Marcelo Andrade, 44. Mas já viu ou buscou orientações em uma das tendas do Coletivo Balance de Redução de Danos, projeto criado  e coordenado pelo profissional. Desde 2006, uma equipe multidisciplinar atua nesses eventos com o objetivo de tentar reduzir os danos causados pelo consumo excessivo de álcool e outras drogas. Entre as ações estão a distribuição de preservativos, o compartilhamento de informações, atendimentos psicoterápicos, além da realização de testes que avaliam o grau de pureza das substâncias psicoativas. Inspirado em projetos europeus e dos Estados Unidos, o Balance é resultado do trabalho de doutorado em ciências sociais defendido pelo psicólogo na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Hoje, o programa é considerado um  modelo e referência entre as estratégias que fazem parte da Política de Redução de Danos no Brasil. Após 10  anos, Marcelo diz estar satisfeito com o trabalho, lamenta pelos que acreditam que ações como as citadas fazem apologia às drogas e afirma: “Precisamos aprender a conviver com as drogas”.

A Bahia foi o primeiro estado brasileiro a contar com um Programa de Redução de Danos, em 1995. O que nos levou a sermos precursores deste programa?
Vários fatores contribuíram para esse caráter vanguardista. Na década de 90, especialistas brasileiros da área de saúde se aproximaram da experiência do Centre Medical Marmottan de Paris, França. Essa aproximação e intercâmbio franco-brasileiro contribuiu para uma nova perspectiva na abordagem do fenômeno das drogas. Uma perspectiva que considera a singularidade do indivíduo e sua personalidade, as características da substância e o contexto sociocultural na análise da drogadição. Nesse sentido, a chegada do discurso e das práticas baseadas na teoria psicanalítica também contribuiu para a adoção de modelos e estratégias individualizadas com respeito à liberdade e autonomia do sujeito. O início da epidemia de HIV/Aids no Brasil, na década de 80, também influenciou para que as práticas de troca de seringas fossem adotadas. Além disso, esse pioneirismo  só foi possível por meio da coragem dos profissionais que trabalhavam no Centro de Estudos e Terapia de Abuso de Drogas (Cetad-Ufba) naquele momento, como Antônio Nery Filho e Tarcísio Andrade.

Atualmente, qual a situação da Bahia em relação a outros estados no que se refere ao desenvolvimento de ações específicas nessa área? 
A Bahia continuou a ser pioneira no campo da pesquisa e na criação de novas abordagens e tecnologias, sobretudo pelo trabalho do Cetad, que destaca-se no cenário nacional e internacional com os projetos Consultório de Rua – que inspirou o atual programa de mesmo nome do Ministério da Saúde -, assim como o Ponto de Cidadania, ambos dedicados à população em situação de rua. Na mesma direção, a Aliança Redução de Danos Fátima Cavalcante (ARDFC), também da Ufba, tem realizado pesquisas e intervenções sobre usos e usuários de crack em populações vulneráveis.

Em que momento o Coletivo Balance, idealizado e coordenado por você, passa a fazer parte dos projetos do Cetad?
O Balance surgiu a partir da minha pesquisa de doutorado do programa de pós-graduação em ciências sociais da Ufba, orientado pelo antropólogo Edward MacRae. Nasceu como escolha metodológica pela pesquisa-ação participante, a partir de um estudo etnográfico sobre usos e usuários de drogas sintéticas em contextos de festas e festivais de música eletrônica. Iniciamos esse trabalho em 2006 e o Cetad inovou e se posicionou como vanguardista na América Latina por fomentar e acolher o Balance como um projeto especial e associado.

Naquela época, já  havia programas semelhantes em outros países?
Sim, coletivos de usuários já existiam na Europa e nos EUA. Eles serviram de inspiração para propor a um grupo de usuários e frequentadores da cena de música eletrônica de Salvador a criação de um coletivo de pessoas que se dedicasse a pensar os modos de uso e estratégias para reduzir riscos e danos associados ao consumo dessas substâncias nos festivais. Também foi fundamental o diálogo e a parceria com o coletivo baiano de DJs Soononmoon, que já era uma referência nas festas de música eletrônica no Norte-Nordeste, além de outros produtores associados ao Balance. Essa configuração coletiva, solidária, sem fins lucrativos e com finalidades de pesquisa e criação gerou um conjunto de saberes e fazeres, atualmente, pioneiro na América Latina.

De que maneira vocês atuam?
O Balance é um coletivo de usuários e não usuários. Contamos com uma equipe multidisciplinar, incluindo DJs, médicos, psicólogos,  antropólogos e frequentadores da cena eletrônica. Durante esses 10 anos, além do Cetad, tivemos a parceria da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Pernambués. Nossas  ações incluem a distribuição de preservativos, orientação e compartilhamento de informações sobre redução de riscos e danos do álcool e outras drogas, a exemplo do LSD-25, ecstasy, cocaína, anfetaminas,  maconha e crack. Desde 2015, não trabalhamos com campanhas impressas. Passamos a investir em performances artísticas como meio mais eficaz de atingir esse público.

O Balance atua em outros estados?
No início da pesquisa, o Balance esteve em festivais fora da Bahia. Em 2006, no Festival de Carnaval TranceFormation, em Corumbá de Goiás; e no Festival Fora do Tempo, na Ilha dos Botes, em Carolina, Maranhão, sempre recepcionados pelo CircuLou, um coletivo de produtores, artistas em sua grande parte oriundos de Brasília, como Quick, Marquinhos Teixeira, Enoque Abiquian, Paulo Costa, entre outras pessoas. Com o final da pesquisa de doutorado, em 2009,  continuaram os laços com o CircuLou e o Festival Universo Paralello, em Pratigi, aqui na Bahia. Atualmente, além do núcleo da Bahia, o Balance interage com uma rede de coletivos e projetos no Ceará (BalanCeará), São Paulo (Respire Redução de Danos/É de Lei) e Porto Alegre (Coletivo Lotus de Redução de Danos), durante a ação no Universo Paralello.

Inicialmente, as ações de redução de danos eram focadas na distribuição de seringas e preservativos. Hoje, quais são as principais?
Na Europa, além da distribuição de seringas e preservativos, havia, e ainda há, estratégia de substituição, como no caso de dependentes de heroína. Eles recebem, com o auxílio de profissionais da saúde, doses de metadona como forma de diminuir os efeitos negativos da abstinência. Há ainda, em alguns países, salas de uso seguro assistidas por profissionais. No Brasil ainda não há experiências similares.

No Brasil se distribui cachimbos para usuários de crack.
Exato. A ampliação no Brasil ocorre exatamente a partir do advento do crack através do atual Centro de Convivência É de Lei (São Paulo), que, desde a década de 90, começou a distribuir cachimbos para usuários de crack como modo de reduzir a transmissão de hepatites e tuberculose entre usuários que compartilhavam apetrechos para fumar a substância. Mais tarde, o mesmo É de Lei lançou o Kit Sneef para usuários de cocaína e outras drogas autoadministradas por via nasal. O kit contém um canudo, uma base metálica, rollers e informações sobre risco de contaminação de HIV/Aids e hepatites com o objetivo de reduzir a contaminação por compartilhamento de material biológico.

Por aqui, também já estão sendo utilizados os testes de substâncias psicoativas. Como você avalia a realização desses testes pelos próprios usuários?
Essa inovação partiu dos usuários de países europeus e dos Estados Unidos, a partir de experiências trágicas e de relatórios publicados pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, o UNODC (United Nation Oficce On Drugs and Crime, em inglês). Eles indicam a existência recorrente de adulterações de drogas sintéticas, como ecstasy, LSD, anfetaminas, estimulantes e afins. A partir desse contexto e das experiências de projetos e coletivos da Europa e EUA, nós, do Coletivo Balance, temos incentivado os usuários a reduzirem riscos e danos associados com a realização da testagem do que ingerem por meio do acolhimento e divulgação dos resultados.

E o que eles relatam? Há, de fato, muitas substâncias adulteradas?
Algo que tem nos chamado a atenção é o caso do N-BOMe. Os usuários reportam que adquiriam uma substância como LSD-25, mas os efeitos eram outros, bem distintos, diferentes. O N-BOMe é, na verdade, um adulterante do LSD-25, também psicoativo, e passou a ser consumido de forma intencional. Isso representa um outro conjunto de potenciais danos à saúde humana, já que apresenta risco de parada cardiorrespiratória. Por último, e muito grave, começaram a chegar relatos de usuários que indicam a adulteração da substância que tem sido vendida como se fosse cocaína, mas que quando testada indica presença de opiáceos, opioides, anfetaminas e metanfetaminas, a exemplo da ritalina [metilfenidato] e ketamina.

Isso significa que os usuários podem estar utilizando substâncias muito mais prejudiciais do que as que acreditam estar consumindo?
Exatamente. É óbvio que, por enquanto, são apenas relatos de usuários que realizaram os testes. É necessário que estudos feitos por instituições de pesquisa, agências e forças governamentais, por meio de métodos e técnicas científicas e laboratoriais, confirmem. Mas, sem dúvida, é algo que nos preocupa.

Vocês nunca pensaram em levar esse coletivo para outras festas? Limitar esse trabalho apenas aos festivais de música eletrônica não acaba fazendo com que as pessoas acreditem que só há drogas nesses ambientes ou estigmatizando seus frequentadores?
Sabemos da existência do consumo de drogas em outros ambientes e consideramos interessante levar essa proposta para outros festivais também. Mas, por princípio metodológico, um Balance do axé, rock ou qualquer outro ritmo teria que ser criado com e por frequentadores dessa cena. Há em cada cena distintos modos de uso, usuários e modos específicos de consumo. Essa reflexão deve nortear abordagens acolhedoras e que possibilitem o melhor cuidado através de intervenções de redução de riscos e danos.

O Balance ajudou a reduzir o número de atendimentos de urgência e emergência nos festivais? Há dados estatísticos?
Não temos uma acompanhamento sistemático e quantitativo posterior ao ano de 2009, quando ainda trabalhava com a sistematização dos dados coletados através da etnografia, pesquisa documental, revisão bibliográfica e entrevistas. Contudo, nesse período de 2006 a 2016, há diversos relatos e o reconhecimento dos produtores das festas – que passaram a remunerar o trabalho dos acompanhantes terapêuticos que trabalham na estratégia S.O.S bad Trip -, dos profissionais que trabalham nos postos de saúde montados nos festivais, além do feedback dos próprios usuários.

Há quem acredite que essa política estimula o uso de drogas.
A redução de danos não faz apologia às drogas, mas à aceitação do ser humano, ao respeito à liberdade e autonomia e aos direitos civis dos cidadãos que passam por uma situação problemática associada ao uso, abuso ou dependência de álcool e outras drogas. Alertar sobre a composição, efeitos e os riscos de qualquer substância psicoativa é correto e justo. É uma ilusão acreditar que possamos viver em um mundo sem drogas. Entendemos que o terror e a mentira potencializam os riscos associados a condutas que sabemos que acontecem e continuarão a acontecer. Para cuidar, assistir, tratar os seres humanos, precisamos antes de tudo aceitá-los e acolhê-los com as suas vulnerabilidades e potenciais. Precisamos, sim, aprender a conviver com as drogas e reduzir os riscos e os danos associados ao seu uso. Creio que devemos focar nossas atenções para o álcool, a substância que menos entendemos como  droga, mas que, segundo dados oficiais, é a que mais mata e representa maiores riscos à saúde da população.
Qual a sua opinião sobre a legalização das drogas?
Não há nenhuma experiência internacional de legalização irrestrita de uma substância psicoativa. Sou a favor da descriminalização do porte das substâncias ilícitas, pois reduzimos o risco de conflitos com a lei e evitamos a adulteração, que aumenta o risco de danos associados. Nas experiências realizadas no cenário internacional, a descriminalização do porte para consumo pessoal não significou aumento de uso.

Ainda falamos pouco sobre o tema?
Sim, mas creio que, assim como ocorreu na década de 80, quando a sociedade brasileira foi convidada a discutir na sala de estar e na mesa de jantar sobre a sexualidade humana, o mesmo ocorre agora com as drogas.  Para mim, o processo é semelhante. Chegou o tempo de discutir e romper os tabus sobre as drogas.

Fonte: http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1756280-a-reducao-de-danos-faz-apologia-ao-respeito

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