Agressão a modelo trans marca o surgimento do fundamentalismo religioso à moda brasilis

A modelo transexual Viviany Beleboni contou ter sido agredida por cinco homens no centro de São Paulo, na tarde da última segunda-feira (11 de julho). Ela se tornou conhecida depois que desfilou na Parada do Orgulho LGBT, em 2015, representando a crucificação de Jesus Cristo.

O que mais chama a atenção nesta agressão a Viviany é que os agressores recitavam versiculos bíblicos e a chamavam de demônio enquanto a espancavam.

Esta não é a primeira agressão sofrida por Vivi. No ano passado ela também apanhou de um homem num caso relacionado à sua interpretação da crucificação de Cristo durante a Parada Gay de São Paulo. Esta também não é a primeira agressão perpetrada por evangélicos a gays e a praticantes de religiões que não sejam a sua ou àqueles que se comportam fora do padrão que acham correto..

O Brasil começa a sair do período de intolerância e entra na era da violência religiosa com todas as subjetividades que isso traz. Há pouco mais de um ano o país viu espantado as imagens de jovens em atitude marcial, vestidos de preto, marchando em um templo da Igreja Universal do Reino de Deus, auto-denominados Gladiadores do Altar, o que provocou reações de diversas organizações que lutam contra a intolerância religiosa em todo o paí, inclusive o Coletivo de Entidades Negras – CEN.

Segundo o site oficial da Iurd:

“Participam dessa iniciativa jovens que são batizados nas águas e desejam auxiliar no desenvolvimento do trabalho da Universal. Para isso, são promovidas reuniões semanais que conduzem ao ensino teórico e prático sobre a importância da Obra de Deus, além da conscientização do real motivo pelo qual um “gladiador” deve saber servir às pessoas espiritualmente, ou seja, do mesmo modo que um soldado não se preocupa com os obstáculos enfrentados para servir a sua pátria. Os jovens também frequentam aulas de inglês e espanhol, caso sejam chamados a atuar no exterior algum dia.

“Um desses rapazes é Anderson Silva, de 22 anos. No passado, ele trabalhou no tráfico e foi viciado em drogas – chegou a ter overdose. Hoje, ele vive uma nova realidade, resultado de um encontro com Deus. Por isso, agora seu desejo é ajudar as pessoas que enfrentam o mesmo problema que ele viveu. “Quero levar a Palavra de Deus e fazer discípulos onde Deus me levar, para que, assim como um dia eu fui transformado, muitas almas também sejam”, afirma”.

Segue ainda o site:

“Um exército contra o mal

“Em cada Estado do País, os pastores responsáveis pelo grupo FJU assumem a responsabilidade de formar os bons “soldados”. O trabalho é intenso e valoriza a hierarquia e a disciplina. O projeto não acontece somente no Brasil, mas também em outros países em que a Universal está presente.

“O bispo Marcello Brayner, responsável do grupo, explica que “o Força Jovem sempre foi um celeiro de homens do Altar. No entanto, por causa do rápido crescimento da igreja, observamos a necessidade de fazer algo a mais, trazendo o jovem para mais perto de nós, levando-os à disciplina e ao equilíbrio – afinal, Deus é o Senhor dos Exércitos. Daí a ideia dos gladiadores, ou seja, servos do seu senhor, servos do Senhor Jesus”.

“Para fazer parte do projeto, a única exigência é ser batizado nas águas e ter o desejo e a disposição de servir a Deus, estar preparado para o que vier pela frente e ter o Altar como o único objetivo”.

O projeto Gladidores do Altar é assustador em sua essência de arregimentar jovens “perdidos”, sem perspectiva, e dar a eles treinamento e disciplina militar para terem como único objetivo, servir a Jesus e combater o mal. No pacote vem a boa vida oferecida aos líderes de destaque da igreja.

As perguntas que estão postas são: a que Jesus servem? Qual o mal que combatem? É sintomático que um projeto como este surja no seio de uma igreja, com formato de empresa, que tem por norma ser a maior propagadora de intolerância em nosso país, e traga em seu bojo uma distorção teológica chamada “teologia da prosperidade”, que prega o bem-estar financeiro na terra e a acumulação de capital como bênção. Ao fim e ao cabo, o que temos é um comércio da fé e uma disputa por mercado onde se estabelece, como público-alvo, os mais pobres e excluídos de nossa sociedade, que servirão, primeiro, como massa de manobra, e depois, como sustentáculo financeiro ao bem-estar dos líderes da igreja-empresa.

Em termos gerais, vemos o surgimento de um fundamentalismo que se sustenta na violência e em nossa tão propalada impunidade. Não que a Iurd e seus gladiadores estejam por trás de ataques como este, mas com certeza, os inspiram. Há casos documentados de igrejas menores (pequenos negócios apenas), que organizam ataques a casas de terreiros e a homossexuais em todo o país. Não tardará surgir franco-atiradores e ataques a bombas contra aqueles que “praticam o mal” segundo a visão doentia propagada por essas igrejas e seus líderes.

Estamos testemunhando um momento-chave em que, ou se tomam ações efetivas para não deixar crescer um problema que se avizinha, ou teremos em poucos anos, ou décadas, um país governado por intolerantes onde a palavra “liberdade” será totalmente suprimida do cotidiano dos milhões de brasileiros, seja a liberdade religiosa, liberdade de orientação sexual e, liberdade de expressão, que está no cerne de tudo que o intolerante mais odeia, seja ele um muçulmano do Isis no Oriente Médio, seja um evangélico-pentecostal brasileiro.

Que Deus e todos os Orixás nos protejam dos dias que virão!

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador Nacional de Política Institucional do CEN

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