Ativista norte-americana visita Conjunto Penal Feminino

O protocolo do Conjunto Penal Feminino de Salvador, que inclui a restrição a objetos cortantes a ao uso de celulares, também serviu, nesta segunda-feira, 25, para visitas ilustres. A ida da ativista negra estadunidense Deborah Small à unidade prisional, localizada na pobre Mata Escura, periferia da capital baiana, não alterou os procedimentos de segurança no local.

No entanto, as 106 detentas dos dois pavilhões do prédio aguardavam ansiosamente pelo evento que dali a alguns minutos aconteceria, organizado por militantes do movimento negro baiano para debater a política do país sobre as drogas e o encarceramento de mulheres negras.

“A oportunidade de qualquer atividade que quebre a rotina de quem está privado de liberdade as anima”, conta a diretora da unidade, Luz Marina. Ela lembra, por meio de números, que os temas abordados têm a ver com aquelas mulheres.

Do total de internas, contabiliza a diretora, 60% estão ali por causa do tráfico de drogas e 80% são reconhecidamente afrodescendentes.

Não à toa, a atividade, promovida pela Iniciativa Negra por Uma Nova Política de Drogas (INNPD) e pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN), acontece no dia 25 de julho, data na qual comemora-se internacionalmente o Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha.

“Para nós, que temos essa ideia de construir uma rede de atores sociais que querem discutir os impactos da proibição das drogas na vida da população negra, essa atividade é muito importante”, afirma a advogada Ana Carolina Santos, ativista negra e uma das fundadoras da INNPD, pouco antes de mediar a roda de conversa entre as detentas e a norte-americana Deborah Small.

“Debater o encarceramento das mulheres negras é mostrar que essa política de guerra às drogas não combate as drogas, porque elas estarão presentes sempre, mas é uma guerra aos negros”, diz Carol.

O grupo que ela ajudou a fundar, composto por militantes e entidades com visão alternativa sobre o uso de entorpecentes, teve a oportunidade, em abril deste ano, de apresentar uma síntese do que pensam sobre o assunto na sessão especial que a Organização das Nações Unidas (ONU) reservada para debater o tema em sua assembleia geral, na cidade de Nova Iorque (EUA).

Foi lá, conta o coordenador de comunicação da INNPD, Márcio Alexandre Gualberto, que surgiu a oportunidade de vinda de Small ao Brasil. “Começamos lá esse diálogo, porque entendemos, como ela, que o encarceramento no Brasil passa por questões racistas e de gênero”, afirma ele.

Relatos do cárcere

Graduada em direito e políticas públicas pela Universidade de Harvard, Deborah Small veio à capital baiana como fundadora da organização Break the Chains (Quebre as Correntes, em tradução livre), que atua promovendo o debate sobre as políticas de drogas e a desigualdade racial.

Em meio às detentas, a norte-americana ouviu histórias do cárcere. De estupros promovidos por maridos fora da prisão a flagrantes de tráfico de drogas supostamente forjados pela polícia, vários casos foram relatados pelas internas.

“Eu vim aqui muito mais para ouvi-las, para levar esse depoimento para outros lugares do mundo, para mulheres que estão na mesma situação delas, sendo responsabilizadas por algo que não escolheram”, disse Small durante o evento.

Entre as histórias ouvidas pela ativista está a de Maria Joana*, mãe de cinco filhos e presa por tráfico de drogas.

Emocionada, ela reclamou da ‘etiquetação’ das detentas como criminosas e disse que paga por alguns crimes forjados.

Lúcia afirma que portava apenas maconha quando foi presa, mas, segundo ela, o boletim de ocorrência registrou porte de crack, cocaína e outros entorpecentes.

“Quando somos presas, nos colocam na mídia como ladras, traficantes, assassinas e depois isso fica grudado em nós. E quando saímos daqui? Isso vai ficar. Como vamos conseguir um emprego?”, questiona.

“Sabemos que tínhamos um pouco de droga, mas também que a polícia botou muito mais. Eu quero pagar só pelo crime que cometi, por nada mais”, diz ainda.

Educação

O aplauso da plateia incentivou outros relatos. Mulheres que temiam a exposição falaram de questões íntimas e mostraram indignação. Uma delas reclamou da dificuldade em acessar a educação dentro do Conjunto Penal Feminino.

“Queremos só oportunidades, achar um trabalho”, diz a detenta, que não vai ser identificada na reportagem por questão de segurança.

A professora Simone Magalhães, militante do CEN, também falou sobre educação durante o evento. No discurso, ela pediu maior abertura à unidade para desenvolver ações do tipo.

Com a palavra, a diretora Luz Marina, responsável pelo conjunto penal, disse que “o presídio feminino está aberto para qualquer evento que seja proposto”.

Fonte: http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/1789193-ativista-norte-americana-visita-conjunto-penal-feminino

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