Como um projeto na favela do Borel recupera jovens, principalmente mulheres, no Rio

Em ano de Olimpíadas, quando o governo do Rio de Janeiro declarou situação de “calamidade pública” na organização dos jogos, a periferia mostra que aposta em economia criativa em plena crise brasileira. Iniciado em 16 de março, com divulgação pelo Facebook, o Fella da Favela é um projeto pretende que reunir artistas periféricos e aplicar uma formação de criação digital e estamparia.

Qual o objetivo deles? Fazer o jovem da perifa produzir uma estampa de camiseta, vender e gerar renda, montar o seu negócio.

Foto: Divulgação/Fella da Favela

Uma coisa que chama a atenção de cara no projeto é uma presença feminina de destaque. As mulheres da periferia encontraram nas oficinas uma forma de expressar sua arte e a cultura negra que a sociedade renega o espaço. Homens também participam, mas são elas que dominam as aulas.

Eles aprendem a ilustrar, utilizar diferentes materiais no projeto e a vender sua arte. O mote da iniciativa é “empoderar” a perifa.

A ideia é criar artistas e empreendedores.

Foto: Divulgação/Fella da Favela

Para entender a profundidade do projeto, conversei com Hudson Ramos (21), instrutor dos programas de computador Photoshop e Illustrator no Fella da Favela.

Olha o Hudson ai. Foto: Divulgação/Fella da Favela

Pergunta: Qual é o seu envolvimento com o projeto Fella da Favela?

Hudson: Antes de me envolver com o projeto eu já fazia parte de diversas atividades de protagonismo juvenil, como o Rap da Saúde que é um projeto voltado para promoção de saúde entre jovens do estado do Rio de Janeiro em diversas áreas.

Também já geri um projeto de revitalização das áreas dentro da comunidade chamado Joga Fora No Lixo. Éramos jovens de 15 a 24 anos que percebiam os locais de risco dentro da comunidade por conta do lixo acumulado. Fizemos a limpeza do local, pintávamos as paredes e reproduzíamos mensagens de conscientização através do grafite.

O projeto era aberto para moradores e era 100% gratuito.

Trabalho na Nextel como jovem aprendiz na área de marketing de segunda à sexta-feira. Atuo como professor no Fella aos sábados no horário de 14hrs às 17hrs.

P: Qual edital vocês ganharam para o projeto nas favelas? Há algum plano de expansão?

H: Ganhamos o edital do Favela Criativa que, resumidamente, é formado por um conjunto de projetos que oferece a jovens agentes culturais formação artística e especialização em gestão cultural.

Hoje nós atuamos na comunidade do Borel, mas recebemos diversos feedbacks apontando que o projeto precisa ser levado pra outros lugares.

Já recebemos propostas gigantescas onde já existem computadores, estrutura, alunos e tudo. Porém, ainda não finalizamos nossas atividades na comunidade onde atuamos. Embora temos alunos de diversos locais do Rio, até mesmo de bairros bem distantes.

P: Um levantamento de uma pesquisadora americana chamada Nancy Hafkin identificou que a informatização das mulheres culmina num maior empoderamento delas nas eleições do Quênia, uma região muito pobre da África. Há presença feminina no Fella de Favela?

H: Com toda certeza, um exemplo disso é que em nossas aulas a grande maioria do público é feminina. Nós já estamos notando que grande parte do público já tem uma pegada na arte e só querem saber como passar isso pra “realidade” de uma sociedade que muita das vezes é subdividida pelos seus preconceitos e barreiras.

Temos mulheres que já desenham suas estampas, outras que trabalham com fotografia e uma que atua em um grupo de afirmação da beleza afro voltada para o pertencimento do cabelo black.

P: Por que vocês decidiram cuidar de estamparia e não outras atividades igualmente remuneradas?

Foto: Divulgação/Fella de Favela

H: A nossa grande sacada foi pensar em duas coisas. Como nossa história de luta muita das vezes não é mostrada pra rua? Como nós temos jovens com potencial para a arte sem cursos gratuitos para que eles entrem no mercado de trabalho?

Daí surgiram as aulas de Photoshop e Illustrator, sempre trabalhando com pertencimento do território e mostrando como é o nosso dia a dia.

Futuramente, essas artes que foram criadas no decorrer do projeto serão estampadas e vendidas numa loja virtual. Uma porcentagem dessa venda será entregue diretamente a quem idealizou a estampa.

O projeto quer trazer uma inserção no mercado de trabalho, exposição de uma arte que antes era silenciada e o sentimento de dever cumprido para quem produz a peça. É uma realização e isso passa a expor uma verdade que antes não existia.

P: Quais são as principais barreiras do projeto?

H: Nossa maior barreira foi e ainda é nossa estrutura. Hoje nós conseguimos um espaço próximo a comunidade do Borel com muito esforço, já que nossas aulas são aos sábados muitas instituições não abrem. As que abrem cobraram valores absurdos para que pudéssemos funcionar.

Foto: Divulgação/Fella de Favela

Com nossa dedicação e parcerias conseguimos um andar inteiro onde acontecem nossas oficinas todos os finais de semana. Nosso maquinário também é bem antigo e foi doado por um projeto que existia na comunidade chamado CIB, que tinha como objetivo trazer inclusão digital para moradores da comunidade.

Temos nove máquinas, que as vezes são bem lentas para 20 alunos, mas a gente se vira.

P: Desde quando vocês existem e quantas pessoas estão envolvidas?

H: Estamos funcionando há três meses, mas começamos a realizar as oficinas aos finais de semana tem um mês por conta do que tivemos que lutar para começar.

Foto: Divulgação/Fella de Favela

Hoje somos um grupo de 10 pessoas que atingem mais de 50 jovens. Além do Fella da Favela, temos o Agentes Pesquisadores da Favela que ministram pesquisas dentro das comunidades visando reconhecer suas necessidades, realidades e histórias.

Tivemos mais de 300 inscrições, mas o Fella só consegue atualmente ministrar aulas para 20 jovens e o Agentes para mais 30.

P: Por que, na sua opinião, faltam iniciativas assim no Rio de Janeiro e nas favelas como num todo? A periferia está mudando?

H: Hoje faltam iniciativas como esta porque pra muitos não é viável expor o preto, pobre e favelado. O que nós realmente temos? O que realmente somos? Onde queremos chegar?

Será que as pessoas querem saber disso realmente? Será que essas respostas não podem ficar ocultas?

Mostrar a favela e suas histórias é mostrar cultura, mostrar que tem gente sim que se empenha, que se envolve e que realmente existe. Acredito que o cenário está mudando, porque sei que em cada comunidade existe um Renan Oliveira, um Hudson Ramos, alguém que olhe por todos, alguém que lute e que consiga proporcionar alguma mudança.

Foto: Divulgação/Fella de Favela

E, acredite, as pancadas que o governo e a sociedade dão na gente são os maiores influenciadores para que a gente tome essas decisões de revolução dentro do nosso coração: A favela!

Via MEDIUM

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