É NÓS POR NÓS NA LUTA CONTRA O MACHISMO!

Todos os dias, todos os dias santos e não santos, assistimos no netflix, telecine play, HBO, filmes que retratam muito bem o patriarcado, o machismo e sexismo existentes até hoje. O que me incomoda é que assistimos a estes filmes e discutimos e não percebemos o quanto ali estão legitimados tudo aquilo que nós tanto repudiamos.

A mídia mais uma vez tem um papel fundamental em nossas vidas e a indústria de cinema fatura milhões com filmes que nada têm a acrescentar a luta das mulheres. Pelo contrário eles só reforçam e legitimam o machismo, o patriarcado e a cultura do estupro e é sobre esta cultura gostaria de conversar.

Todos os dias santos e não santos, converso com os homens que fazem parte do meu Coletivo (CEN – Coletivo de Entidades Negras) sobre cuidado e respeito para com as mulheres, são bate-papos informais, encontros, rodas de diálogo, nos quais tento levá-los a entender que o seu olhar de objetificação, seu assedio nos incomoda. Que odiamos andar na rua e ouvir “gostosa”, “que rabo”, ou o abraço daquele “amigo” que nos pega por trás.

Estes que também abraçam, assediam, olham etc., estão até se dizendo revoltados com os 30 homens, “homens desequilibrados mentalmente”, “estupradores de uma jovem de 17 anos”. Vale explicar aos senhores: quando você chama aquela menina de “gostosa” como se fosse um pedaço de carne no espeto em uma churrascaria, não esqueça que ela poderia ser sua filha, irmã, mãe, sobrinha, afilhada e que em algum lugar algum machista perverso e escroto como você também falará as mesmas palavras de “elogio” para suas pequenas e amadas mulheres que fazem parte do seu pequenino mundo, porque para um igual a você ela é GOSTOSA… a sua filhinha… gostosaaaaa?

Quando você machista, ao ler uma reportagem sobre estupro e pergunta, “qual a roupa ela estava vestindo?” poderia ser a sua filha, a sua irmã, a sua mãe e se elas, Deus as livre, encontrem no caminho delas este ser desumano, chamado homem e estuprador, você com certeza quererá matá-lo… Ele violentou uma mulher da sua família, mas você todos os dias se diverte com seus amigos, seus iguais… falando sobre mulheres e adjetivando-as e dizendo que elas só querem o seu dinheiro, que mulheres são traidoras, que mulheres são um monte de coisas, de adjetivos que você não quereria que ninguém dissesse sobre as mulheres da sua família.

E você leu aquela reportagem e chamou a todos de animais, mas não esqueceu de na sua cabeça ficar se perguntando como ela estava vestida, o que ela fez para “provocar” estes “bons rapazes” os quais estavam quietos no seu lugar e veem passar aquela mulher provocante de 17 anos… eles não resistiram, aconteceu a violência sexual e você do seu lugar de macho entendeu prontamente.

Lia Zanotta Machado em sua pesquisa sobre violências sexuais, nos explica:

“O estuprador parece confiar no senso comum de que todos os homens concordariam de que as vadias e prostitutas não teriam direito de dizer não… Confia ainda no entendimento que só as mulheres de família não podem ser estupradas. Não está longe de se aperceber do que chamo de hegemonia de uma leitura cultural sobre o estupro, que se situa no campo da referência à enquanto “pessoa relacional”, isto é, a mulher que não pode ser estuprada é predominantemente a mulher de família, paradigmaticamente a mulher entendida na sua qualidade relacional: como mãe, irmã, ou filha. Um acusado de estupro chega a se surpreender que a mulher que dizia vagabunda, porque estava altas horas na parada de ônibus, “tinha um irmão, que a socorrerá…”

Bom entender, que os 30 rapazes estupradores, são legitimados por você, por cada homem que se cala e se diverte diante desta barbárie, que se fecha a comentários e denuncias e fica com seus borbotões pensando se ela era realmente bonita para chamar a atenção de tantos de vez. O seu silencio frente a tal violência nos faz entender, reforça que você não é nosso parceiro, que você não está nem aí para nós mulheres, a sua preocupação é com aquelas que estão no seu redor e são parte da sua família, esquecendo-se que ela não é família de um monte de outros que estão lá fora prontos para violenta-las e deixa-las ferida física e mentalmente, mortas mentalmente e sem entender o porquê de tanta barbaridade.

Sejam, senhores, mais humanos, mais respeitosos, menos egocêntricos e entendam que o que acontece com uma poderá acontecer com todas… independente da roupa, do perfume, da hora… ou se ela estava provocando.

Só desejamos que você homem entenda que lutamos por uma autonomia física, econômica, política, social e que não andamos pela rua para lhe provocar como é a fala de muitos estupradores e muito menos a sua bebida, a droga que você utiliza para ficar “legal”, não deve ser responsabilizada por sua falta de caráter. A sua intenção quando pratica um ato destes é nos destituir do nosso orgulho e nos imputar a vergonha, é fazer com que nos sintamos fracas e incapazes e vocês após esta destituição de tudo que nos é mais importante, sai pelas ruas contando o seu ato e acha outros iguais a você os quais escarneiam de nós mulheres como se nada fossemos…

Meu senhor, o sofrimento da jovem de 17 anos é moral, é físico, dói muito, machuca mais ainda lá no intimo de cada mulher que viveu uma violência. Senhores, precisamos acabar de uma vez por todas com o patriarcado e o machismo que lhes permitem acreditar que têm direitos sobre nossos corpos. Quem têm que ficar envergonhado são vocês que estupram, que violentam e utilizam motivos torpes, tão pequenos e nojentos… Nós mulheres continuaremos lutando contra o machismo, sexismo, o racismo, o patriarcado e todo o tipo de violência impetrado a nós, seguiremos juntas porque como dizem minhas amigas-irmãs: “É nós por nós” e seguiremos tendo sempre: “Mais amor entre nós” e será essa a nossa fórmula para vencer tudo isto que está posto aí, VENCEREMOS O SEU MACHISMO, O SEU PATRIARCADO, O SEU SEXISMO JUNTAS, UNIDAS, FORTALECIDAS UMA PELA OUTRA.  

Por Iraildes Andrade.
Coordenadora Estadual de Gênero

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