Entre Tantas Divas, “Rogéria”!

Morreu esta noite (04/09/2017), aos 74 anos, a atriz travesti, de maior reconhecimento pela mídia televisiva e impressa do Brasil, Rogéria, em decorrência de uma infecção generalizada (Choque séptico), contrariando as estatísticas do país, onde a idade média de vida das travestis é de 35 anos, enquanto a dos demais brasileiros é de 75,2.

Ao longo de sua carreira, a artista Rogéria também foi exceção no que se refere às suas ocupações, pois, enquanto a maioria das travestis, encontra somente a prostituição como ofício e meio de sobrevivência, ela teve a sorte de atuar como cantora, atriz, vedete, maquiadora, jurada e modelo, embora preferisse ser chamada, apenas, de artista. Reconhecendo, inclusive, que ela vivia “mais e melhor” que tantas outras travestis deste país.

Nascida em Cantagalo, interior do estado do Rio, ela começou sua carreira por volta dos anos 60, no ofício de maquiador, ainda como Astolfo, mas, logo foi estimulada a assumir seu espaço nos palcos, iniciando sua carreira como artista numa boate da Galeria Alaska, um dos mais antigos redutos gays da noite carioca, em Copacabana, sem ignorar que isto se deu em plena ditadura militar, período mais aterrorizador da nossa história.

Trazer esta realidade nos convoca a pensar sobre as dificuldades de se produzir arte transformista, mas, também, atentar para alguns aspectos singulares da “travesti da família brasileira”. No entanto, o seu empenho permitiu a preservação de espaços, para que outras representações, desta cultura, pudessem encontrar os mesmos, para assumirem seu lugar, no mundo das artes. Não podemos, ainda, ignorar o fato de ela ser descendente de família branca carioca.

A morte de Rogéria de forma digna, em um leito de hospital, numa zona nobre do Rio (Barra da Tijuca), nos faz perguntar: o que a difere das tantas travestis que são expulsas das escolas, impedidas de acessarem as empresas e organizações que lhes permitiriam o trabalho de forma mais digna e justa?

A morte de uma travesti, branca, nos entristece, mas também convoca-nos a dizer, que todas as travestis têm o direito à esta mesma dignidade e reconhecimento pelo seu trabalho, e que, portanto, cabe-nos, a cada dia, fazermos a defesa dos direitos das populações LGBts, independente de classe social, econômica ou de sua etnia. Precisamos que nos tratem pelo que de fato somos, pessoas com direito a uma identidade livre e respeitada.

Precisamos que outras tantas Rogérias, brancas ou negras, sejam também as travestis das famílias brasileiras, sejam estas, biológicas ou substitutas. Afinal, enquanto negras e negros, seríamos capazes de nascer em qualquer país, sem termos nos originado de uma família?

Quem sabe teremos outras Divas capazes de dizer o mesmo que ela:

“Meu amor, eu vivi mais do que qualquer outra. Mais e melhor.” 
Rogéria. (25.05.1943 – 04.09.2017).


Gabriel Teixeira
Coordenador LGBT do CEN

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