ENTREVISTA: Pixo, arte e resistência política

Como começou seu envolvimento com a questão da pichação?
Eu já tinha um percurso longo com o grafite na cidade. Um dia fui acompanhar uma pessoa que ia fotografar grafites, e ela me contou que o prefeito queria fazer uma delegacia só para pichação, o que aconteceu na época da prisão dos “Piores de Belô”. Eu nem gostava de pichação. Mas cheguei no viaduto Santa Tereza e vi que muitos grafites estavam “atropelados” por pichações. Me coloquei a pensar: Será que esses meninos têm algo a dizer? Será que estão sentindo essa perseguição? Minha trajetória acabou me levando a mergulhar na pichação, tentando entendê-la. Será que, como a escrita literária, aquela escrita também causa transformações no sujeito que a produz?

A pergunta que nunca se cala: pixo é arte?
Eu sempre fico pensando porque a gente tem que definir como arte para poder entender, sabe? Talvez não possa afirmar que seja arte pelo ponto de vista acadêmico, das belas artes. Mas se eu penso que o pixo é escrita, poética e política, se eu entendo que ele constrói autores, de alguma forma, ele se mostra como arte. Não há como fugir disso. Foi considerado pela Bienal de Berlim, pela Bienal de São Paulo. O cara inventa uma grafia, um nome, uma linguagem, um simbolismo, uma educação patrimonial. O que é isso se não arte?

Por que há tanta dificuldade em entender o pixo como elemento da cultura urbana?
Talvez seja a mesma dificuldade de entender que o rap e o funk são cultura. Muito pelo fato de ser uma estética própria, periférica, jovem, livre, que se apropria das coisas a partir de um princípio muito peculiar, que não vem do lucro, que compactua com a televisão. É difícil as pessoas entenderem como legítimo, como respeitável, algo que elas têm dificuldade de entender, que não conhecem, que não se dirige a elas. Além de tudo, tem a transgressão, numa sociedade que é cada vez mais extremada. Se é ilegal e eu não entendo, então quero que desapareça. Não temos uma cultura de convivência na cidade entre os diferentes.

Ao contrário do pixo, o grafite conseguiu status de arte e foi para galerias mais cedo. Por quê?
Primeiro, é importante lembrar que a pichação, em menor escala, também já estabeleceu diálogos com espaços de arte. Principalmente em cidades como Berlim e Nova York. Sobre o grafite, acho que tem a ver com a beleza, com a possibilidade do entendimento. E porque voltamos ao tempo da criminalização da escrita. O grafite tem raiz comum com a pichação, e as pessoas insistem em não entender isso, talvez pelo grafite ser mais confortável para o olhar. A possibilidade de ver o grafite como algo bonito, que inclusive pode “curar” a cidade do pixo, talvez faça com que ele seja tão capitalizado pelo poder público atualmente, que age como se quisesse acolher o grafite. O grafite topa o diálogo de receber lugares para acontecer e ser feito, como no projeto Telas Urbanas. A pichação não tem disso. A atividade parte dela mesma.

Recentemente, assistimos à prisão do Goma, um dos pichadores mais conhecidos da cidade, que gerou protestos e muita indignação. Há, de fato, uma perseguição ao pixo em Belo Horizonte?
Claro. Eu acho que Belo Horizonte chegou no ponto máximo de abuso de poder, de uma interpretação que não considera essas pessoas, essas culturas. É um desconhecimento e um exagero muito grande esse investimento contra pessoas que, para o poder público, destroem o patrimônio. Mas é a Justiça quem está destruindo a vida dessas pessoas, porque rabiscaram paredes. Não dá para entender o por quê de tanta marginalização para uma coisa que se apaga, muitas vezes, no mesmo dia. Percebo que BH é pouco afeita à liberdade, à juventude, à ocupação do espaço público com alegria. E prova disso é essa mobilização contra a arte urbana, esse desejo punitivista de prender pichadores como exemplo.

Que foi o que aconteceu com o Goma, na sua análise?
Exatamente. O Goma é um comunicador, um artista da rua, com um alcance muito grande na cidade, com diálogo com vários setores. O curioso é que ele não pichou a Igrejinha da Pampulha, mas mesmo assim foi envolvido e preso. É porque nesse contexto da cultura de rua tudo é criminalizado. A amizade, a estética, a simbologia. Se o Marú (autor da pichação na igreja São Francisco de Assis, preso em maio deste ano) não tivesse pichado a Igrejinha, eles talvez tivessem dado outro jeitinho para prender o Goma. O chamaram para que ele entregasse o Marú, ele não quis falar nada e, então, retiraram sua fala e seu trabalho (dias antes da prisão de Goma, a polícia apreendeu todos os materiais de sua loja, Real Grapixo, que vendia latas de spray e camisetas que faziam alusão à pichação), e o enquadram por apologia. Então, tudo que tem a ver com pichação é criminalizado. Até a ética do pichador. Parece que estamos falando da máfia italiana, mas o assunto são rabiscos na parede.

A pichação na Igrejinha da Pampulha motivou muitos debates sobre arte urbana e patrimônio público, inclusive um último com a sua participação, no Café Controverso, que aconteceu ontem. Como você vê essa seara?
É preciso falar do uso do patrimônio, do direito da cidade, do que existe na cultura de rua que o ordenamento da cidade não consegue aplacar. Temos que pensar na desproporcionalidade das penas, numa cidade que cuida mais do patrimônio do que das pessoas. Em tese, porque a gente já viu diversas situações em que a prefeitura agrediu o patrimônio e não foi julgada. Afinal, o que é público? Como falamos dessa designação quando ela vem de cima para baixo? O Marú, por exemplo, afirma que não sabia o que era patrimônio, quem era Portinari. Isso mostra a necessidade de uma educação patrimonial, de envolver no debate, por exemplo, o pichador, que é uma figura que se envolve muito com a cidade. Ainda que seja patrimônio, é justo deixar alguém preso por oito anos, como existem casos na cidade, por conta de uma manifestação estética? E preciso pensar, também, qual o patrimônio que o pixo configura para ele mesmo.

Na sua opinião, o que leva uma pessoa a pichar?
Uma vez vi num seminário um pichador dizendo que, quando alguém dissesse porque se picha, a pichação iria acabar. É aquela ideia de que falar demais da arte acaba com a arte. Mas eu poderia dizer que a pichação é fruto da vida urbana periférica brasileira. Já vi menino falando que começou a pichar porque não tinha o que fazer no bairro, ou para ficar conhecido e ter ibope, e depois entendeu a função política do que ele fazia, que se configura como protesto. Mas é difícil definir. O que faz um menino continuar pichando depois de ser tão injustiçado? Talvez a própria injustiça seja o motor. Mas tem também a coisa vibrante da juventude, que escapa dos ordenamentos. E, como diz a música, “eu acredito é na rapaziada”. Acredito na cultura de rua. Não consigo parar de querer que a pichação seja melhor debatida nessa cidade, onde tantas vidas têm sido destruídas pela injustiça.

Por LUCAS BUZATTI para O TEMPO.

 

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