Fórum Social Mundial sedia Plenária Nacional de Povos de Terreiro

Uma das principais pautas do Fórum Social Mundial 2018, as religiões de matrizes africanas vêm, há anos, batalhando por espaço e respeito em uma sociedade que ainda vive sob fortes influências do preconceito e do racismo.

Tendo como bases iniciais essas questões, a Comissão de Preservação e Salvaguarda de Terreiros Tombados da Bahia, realizará, em conjunto com diversas representações e lideranças religiosas de todo o Brasil, organizadas por meio de cinco videoconferências, a Plenária Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e de Terreiro, nos dias 14 e 15 de março, no Teatro da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no Cabula (Salvador), além de integrar a Marcha de Abertura do Fórum Social Mundial dia 13 a partir das 14h, saindo do Campo Grande.

O evento trata do encontro entre religiosos de matrizes africanas de todo o Brasil, onde será analisado e discutido o atual cenário em que estas crenças estão inseridas. Nesse período, a pretensão é mobilizar as representações destes povos e comunidades dentro do Fórum Social Mundial oportunizando discussões sobre questões de grande valia para a perspectiva religiosa, como a relação das tradições religiosas com a contemporaneidade, o uso de animais nos rituais sagrados, o racismo religioso e a criação de estratégias para melhor se organizar politicamente.

Engana-se quem pensa que o racismo religioso acontece exclusivamente na Bahia, por se tratar de uma população predominantemente negra. As mesmas questões também são vivenciadas em outros estados, como o Pará.

Lá, apesar da riqueza e diversidade religiosa da região Norte do país, o candomblé é fortemente atacado, resultando em terreiros invadidos, depredação de objetos sagrados e até mesmo homicídios.

“Vivemos no Pará uma barbárie de intolerância e de desrespeito com as nossas tradições de matrizes africanas. Os assassinatos que ocorreram aqui foram muito cruéis”, lamenta Mam’eto Nagentu, do Manso Bandu Quenqué Neto, localizado em Belém do Pará.

Além deste tema, outros pontos importantes serão discutidos na Plenária. Entre eles, está a supressão de políticas sociais de fomento à agricultura familiar e à segurança alimentar no último ano, sem falar do recente debate sobre a presença dos animais nos rituais religiosos.

Para Rita Ventura, presidente da Associação das Baianas de Acarajé, Receptivo e Mingaus – ABAM, a matança é de teor fundamental e diferentemente do sacrifício, o animal é reaproveitado para a alimentação das pessoas. “O que vai para o lixo nos matadouros (vísceras) nós ofertamos aos nossos orixás e as outras partes damos para a nossa comunidade”, defende.

Mesmo com todas as conquistas adquiridas nos últimos anos, para o advogado, doutor em direito e ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo, Hédio Silva Junior, ainda há muito a ser feito em termos de reconhecimento religioso e cultural por parte dos atuais governantes.

“Precisamos urgentemente de treinamento de advogados e preparação das lideranças religiosas, para que elas saibam como reagir, como proceder, como encaminhar denúncias de crimes de racismo religioso para que a gente possa diminuir a impunidade e ao mesmo tempo sinalizar para o nosso povo que é possível o enfrentamento na via judicial desse problema crescente e constante que é o racismo religioso”, avaliou Silva Júnior.

Ele também defende que a comunidade de matrizes africanas tenham uma ação mais organizada para que esses crimes de ódio sejam punidos pela Justiça Federal, já que isso pode aumentar significativamente a chance de punição dos respectivos responsáveis.

O Tata Kinamboji Arthur Leandro acredita que esse momento, da Plenária dentro no Fórum Social Mundial, será de grande importância e enfatiza que é necessário mais enfrentamento por parte dos religiosos de matrizes africanas em relação a representatividade política.

“Espero que na plenária, durante o Fórum Social Mundial, possamos criar redes de educação, comunicação, proteção e outras estratégias de sobrevivência para a conjuntura política que se apresenta ao Brasil. E, claro, convencer os terreiros de disputar o espaço público da política e em apoio aos programas que nos contemplem em políticas afirmativas”, pontuou.

“A plenária vem oportunizar isso, é o primeiro grande encontro após esse grande golpe midiático e de justiça que estamos vivemos e é a hora de construir um grande momento, que aponta como sendo o congresso do povo brasileiro”, destaca Makota Celinha Gonçalves, coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira – CENARAB.

O coordenador nacional do CEN, Marcos Rezende, explica que a organização da atividade foi feita por um conjunto de representações, numa demonstração de unidade do povo de santo e das comunidades tradicionais.

“Essa rede de representações e instituições é formada por todas as entidades nacionais ligadas a essas questões, terreiros, inclusive aqueles que não têm tanto espaço para falar, de forma a promover uma união em torno da pauta, trazendo unidade para o encontro”, afirmou ele.

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