INFÂNCIA E REPRESENTATIVIDADE NEGRA

“Se como sou não é mostrado, é por que isso só pode ser ruim, né, tia?”

Certa vez ouvi isso de uma criança, uma criança de 9 ou 10 anos, negra em um colégio municipal da baixada fluminense, próximo a uma comunidade daqui enquanto conversávamos sobre desenhos e novelas. Tenho um enorme fascínio por crianças, afinal elas parecem ter a fórmula para descomplicar e conseguir discutir o que nós, jovens e adultos, perdemos horas e horas analisando. Aquilo que eu vejo não é aquilo que eu sou e se ninguém quer me mostrar, o que sou só pode ser ruim. Essa talvez seja a conclusão que eu, ou você ou qualquer criança negra algum dia chegou mesmo de forma  inconsciente ao ligar a TV e se deparar com desenhos, novelas, séries onde a única cor mostrada é a branca. A super-heroína é branca, a mulher que manda em todo mundo é branca, a boneca que me vendem é branca, todas as coisas boas que me mostram estão em um papel de cor branca. Caramba! Eu devo ser ruim! Eu quero ser branca igual àquela moça da TV também!

Minha geração cresceu com esses pensamentos enraizados, somos uma geração de crianças que apenas depois de muito tempo aprenderam a construir sua própria identidade, só após muito sofrimento aprenderam a não querer mudar a si mesmos. Ainda que eu abra meu Facebook e veja notícias como a de Matias, o menino de 4 anos, cuja mãe Jaciana tive a felicidade de conhecer e sei que é uma jovem historiadora, militante, negra e consciente… Eu sei que aquele ainda é um caso isolado. Durante entrevistas ela contou que levou o filho a lojas de brinquedos e prometeu lhe comprar um presente,  com a condição de que o menino encontrasse um brinquedo parecido com ele. Felizmente esse exercício de procura teve um final feliz, resultou na linda imagem que todos (até mesmo o ator John Boyega) vimos. Mas nem sempre é assim, há alguns meses talvez essa criança saísse sem nada nas mãos.  Em um relato Jaciana ainda disse: “Eu não esperava que houvesse essa repercussão, quando postei aquela imagem… Deveria ser apenas a foto de uma criança com um brinquedo.”

Foto compartilhada no perfil do Instagram do ator John Boyega. Nela, Matias segura o boneco do personagem Finn de Star Wars. Na imagem compartilhada o ator escreveu: “Tempo de ser grato. O que você segura em sua mão tem o potencial na sua mente, você é um rei, jovem homem. Beijos”

Deveria ser apenas a foto de uma criança com um brinquedo. Mas, ao contrário do que a trupe dos “Não sou racista… eu não vejo cor” costuma dizer, criança tem cor e brinquedos também e todos enxergamos isso. E talvez a maioria das pessoas não saiba mas quando o que vemos não parece conosco, isso dói. Dói de um jeito que faz com que desejemos não sermos nós mesmos, desejamos ser diferentes. A verdade é que não quero ser o moleque de rua, o escravo, o bandido, a empregada, a babá, a mulher que samba nua. Não quero. Eu quero ser a empresária, aquela moça que dá ordens, a advogada que resolve o caso, o cara que dirige o carro legal (o que é o dono do carro, não o motorista). Eu não quero ser o que mostram, mas no final… Acho que vou acabar me tornando isso, né?

Algumas pessoas consideram esse pensamento exagerado por não compreenderem o poder da mídia sobre nós. Quando você escolhe prestar vestibular para medicina, quando opta por aquele celular novo, quando decide vestir a sua camiseta azul, nenhuma dessas escolhas vieram só de você, tudo o que você é ou aspira a ser é moldado por uma sociedade desde seu nascimento. Mas alguns moldes não cabem à todos. Geralmente, os moldes “bons” não cabem em crianças negras e pobres. E então, elas acabam se moldando no que dá ou no que são ensinadas a aceitar.

É preciso que a identidade da criança negra seja fortalecida nas mídias. Especialistas que estudam casos de racismo na infância afirmam que a falta de representação de crianças negras nos meios de comunicação é o principal fator para que as “brincadeiras de crianças” se tornem injúrias raciais. Ildete Batista, uma professora do Distrito Federal que desenvolve um trabalho contra o racismo em escolas, mostra que o trabalho de base com crianças negras faz a diferença, ela contou em uma entrevista que antes do projeto ser iniciado uma menina negra que não gostava de seu cabelo crespo se desenhava loira e de olhos azuis e que, após alguns meses, passou a se desenhar com o cabelo enrolado e a pele escura.

Trabalhos como esse parecem estar fazendo efeito, uma vez que vimos recentemente um menino negro de 13 anos que criou um canal no Youtube para falar sobre os heróis negros brasileiros, o que aconteceu segundo ele logo após ter assistido à peça O Topo da Montanha, que está em cartaz em São Paulo e conta um episódio da vida de Martin Luther King, encenada por Lázaro Ramos e Taís Araújo. Mais uma vez, uma aspiração positiva que uma criança negra criou após ter se visto representada, agora no teatro.

Pedro Henrique Cortes, ou PH Cortes como é conhecido, criou a série “Meus Heróis Negros Brasileiros” em seu Canal do Youtube e utiliza a rede para resgatar a identidade e nos lembrar de nossos heróis.

O debate sobre racismo na infância é emergencial, nós, adultos, não podemos mais classificar como “brincadeira de criança” algo que fere a identidade de uma pessoa em formação, nossas crianças são o futuro e quando penso no futuro vejo a força e a esperança de um futuro digno, cheio de sorrisos, afirmação, representatividade, conforto e sucesso. O futuro que eu almejo é um futuro bom, o futuro que almejo é um futuro negro.

Fonte: http://www.revistacapitolina.com.br/infancia-representatividade-negra/

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