Morre artista plástico pernambucano Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, o “Tunga”

Morreu nesta segunda-feira em decorrência de um câncer na garganta o artista plástico pernambucano Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como “Tunga”. Ele tinha 64 anos e estava internado no hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, desde 12 de maio.

Sua carreira iniciou em 1973, quando Tunga fez sua primeira individual. Chamada Ão. Datada de 1980, ela foi recentemente comprada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Trata-se de um filme feito em uma seção curva do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, onde Tunga morava. O trecho é repetido em looping, sugerindo um circuito da câmera em círculos, como se o tempo prosseguisse e o espectador não saísse do lugar, sem comunicação com o espaço exterior, numa jornada sem fim ao som da canção Night and Day  na voz de Frank Sinatra.

Tunga fez vários outros filmes, alguns em parceria (inclusive com Eryk Rocha, filho de Glauber). Mas foram suas esculturas e instalações que o levaram a ser disputado por colecionadores e museus internacionais. Além do MoMA de Nova York, outro museu importante que tem obras suas é o espanhol Reina Sofia.

A forma circular foi quase uma obsessão para Tunga nos anos 1980. Uma das primeiras exposições do artista em São Paulo que despertou a atenção dos críticos, Le Bijoux de Madame de Sade (1983), realizada no então Gabinete de Arte de Raquel Arnaud, exibia como peça principal um gigantesco anel de metal. O toro também surge de sua experiência no filme Ão, afirmando sua intuição de uma temporalidade singular, seu modo de pensar o tempo de modo semelhante ao do físico Stephen Hawking.

Obra de Tunga exposta no pavilhão dedicado a seu trabalho no Inhotim (MG)Foto: Eduardo Eckenfels / divulgação

Tunga foi experimentando outros materiais nas décadas seguintes. Ferro, cobre, aço, chumbo, mercúrio, cristais, ímã foram usados em peças que investigavam o campo magnético e a presença do invisível, que para ele sempre foi motivo de fascinação. Chegou a trabalhar com seres vivos em obras como ‘Vanguarda Viperina’ e ‘Laminadas Almas’, investigando simultaneamente o aspecto biológico dos corpos e as formas de energia oriundos da interação entre eles.

Foi observando serpentes enroladas que surgiram suas “tranças” de chumbo, que inspiraram performances como as das xifópagas capilares (1984), duas garotas unidas pelos cabelos. Não foi a mais exótica de suas criações. Em Lézart’, uma das obras de seu pavilhão em Inhotim, não há solda entre as chapas de ferro e o arame. Esses materiais são ligados por força dos ímãs que os atraem. Aliás, Tunga foi o artista que sugeriu ao empresário Bernardo Paz a criação daquele centro de arte mineiro que reúne alguns dos principais nomes de arte contemporânea brasileira. Foi num encontro na casa de Paz que essa ideia nasceu. O pavilhão dedicado a Tunga é um dos mais impressionantes do lugar, hoje espécie de seu mausoléu.

Via ZERO HORA.

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