Mulher, negra e chefe de família – moradora da Ladeira da preguiça é aprovada três vezes na UNEB E UFBA

Uma jovem, negra, chefe de família e moradora da Ladeira da Preguiça tem muito o que comemorar nesse início de 2018. Suzany Varela Felix, de 26 anos, foi aprovada três vezes nas duas universidades públicas da Bahia, graças ao projeto UPT – Universidade para Todos, que implantou o curso pré vestibular e ao CEN – Coletivo de Entidades Negras, que conseguiu viabilizar material suficiente para que as aulas aconteçam na comunidade.

Quando estava participando do projeto, ainda em 2017, a jovem foi selecionada para o curso de pedagogia, através do EAD, oferecido pela UNEB. Já neste ano, Suzany foi aprovada a partir da nota do ENEM para os cursos presenciais de pedagogia, também pela UNEB e interdisciplinar em humanidades, pela UFBA. 

Suzany é moradora da Ladeira da Preguiça há 15 anos e cria sozinha uma criança de oito. Em meio às dificuldades enfrentadas cotidianamente teve que, por diversas vezes, se dividir entre o trabalho, os afazeres domésticos e os estudos. “Nesse meio tempo cheguei a vender chocolate no ônibus, para poder suprir as necessidades minhas e do meu menino.”

Parte da turma de Suzany com a professora de História, na Ladeira da Preguiça. Foto: Arquivo pessoal

O CEN – Coletivo de Entidades Negras teve função de extrema importância nesse processo. Foi através da parceria com o projeto cultural Que Ladeira É Essa (?), que o programa Universidade Para Todos trouxe o curso pré vestibular para a comunidade, possibilitando a preparação de jovens e adultos para prestarem vestibular para a UNEB e outras entidades de ensino. Apesar das dificuldades, tanto de estrutura física, quanto dos gestores do próprio UPT de relutar em trazer o programa para a Ladeira da Preguiça, hoje os alunos já começam colher bons resultados.  

Para Marcos Rezende, Coordenador Geral do CEN, a principal proposta de parcerias como estas não é apenas levar a preparação acadêmica para realização do vestibular, mas  espaço de fortalecimento da ideia de coletivismo, afirmação identitária, laços de autoestima e  formação politica, com autonomia para enquadrar diversos assuntos ao cronograma de aula como diversos debates sobre racismo, lgbtfobia, gênero, intolerância religiosa e atual conjuntura politica do Brasil. Um dos fatores de grande importância para o sucesso do curso foi a  escolha professores negros de religião de matriz africana e que possuem posicionamento politico semelhante aos nossos, fazendo do curso mais uma atividade de luta.

Além do Que Ladeira é Essa, o CEN possui outras parcerias que trazem como prioridade a valorização dessas comunidades predominantemente negras e de baixa renda local, como o Quilombo de São Braz, que graças ao Coletivo, também foi beneficiado com o projeto Universidade Para Todos, permitindo que cerca de 50 jovens do local pudessem realizar o curso pré-vestibular sem custo algum. Para Lívia Oliveira, professora do projeto, o mais gratificante foi ver Marivalda Santana, uma das alunas, ser aprovada no curso de pedagogia, pela UNEB. “Uma parte do meu sonho se concretizou através da aprovação de uma aluna, pois sei que é o pontapé inicial para as muitas aprovações que virão e da mudança positiva que trará a essa comunidade que é carente de tanta coisa, principalmente de conhecimento”, conta. 

Moisés (xadrez) e parte da turma no Terreiro Junsun. Foto: Acervo pessoal

Dessa vez, quebrando quaisquer tipo de preconceito ou intolerância religiosa, o CEN em trabalho conjunto com o Terreiro Junsun conseguiram implantar o projeto dentro de uma Casa de Axé, no bairro do Alto do cabrito, na suburbana. Atrelado ao conteúdo didático, também foram criados rodas de conversas, atividades politicas como um Sarau e visitas ao teatro. Moisés Lucio dos Santos, morador do bairro, foi aprovado pela UNEB, no curso de sistema de informação, graças ao trabalho realizado dentro do terreiro. “A experiência foi de grande importância, pois para além dos vestibulares, essa parceria desencadeou um processo critico construtivo para transformação social de jovens e adultos pretos antes sem nenhum direcionamento analítico”, afirma Fabrícia de Jesus, colaboradora do CEN na comunidade.

A conquista de jovens negros como Suzany, Marivalda e Moisés não é um mérito individual, e sim uma formação coletiva, porque houveram condições de estudo oferecidas por um setor do estado, além de uma organização da sociedade civil com grande perspectiva racial, permitindo que projeto como esses pudessem chegar nesses locais. Agora eles se enxergam com o dever de fortalecer de fortalecer os núcleos étnico-raciais das instituições e principalmente as suas comunidades, permitindo que outras pessoas possam ingressar na universidade, dando cada vez mais espaço ao negro, pobre que vive a margem da sociedade burguesa.

 

 

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