Mutilação genital afeta 200 milhões de mulheres no mundo, diz ONU

Cerca de 200 milhões de mulheres sofrem com a mutilação genital em todo o mundo. O dado foi divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) marcando, nesta terça-feira, o Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. O problema está presente, sobretudo, em países da África.

Em algumas culturas a mutilação genital é um costume quase obrigatório das famílias. Em muitos países ela é vista como um ritual para evitar que a jovem leve uma vida sexual plena no futuro, o que, na visão desses grupos, seria algo devasso. Entre alguns povos muçulmanos, a prática é vista como uma maneira de livrar a criança do pecado e torná-la membro de fato da religião. Há aqueles que também consideram que a circuncisão protege a criança de problemas mentais e deficiências.

Kedija, de 25 anos, teve sua vulva removida e a vagina costurada quando tinha apenas sete dias de idade e enfrentou uma vida de dor.

– Não conseguia segurar minha urina por muito tempo- disse em entrevista à Associated Press. – Eu me isolei de qualquer socialização por causa disso. Mais tarde, quando minha menstruação veio, devido à pequena abertura, a dor foi pior do que nunca. E depois que casei foi doloroso ter relação sexual com meu marido- conta ela que após três partos foi diagnosticada com complicações renais quase fatais.

 

Mulher reproduz parte da cerimônia de circuncisão, em Uganda – YASUYOSHI CHIBA / AFP

Em Afar, na região do deserto da Etiópia, cerca de nove entre dez mulheres e meninas sofreram mutilação genital, muitas antes do primeiro aniversário.

“Mais de 200 milhões de mulheres e meninas ao redor do mundo vivem com os efeitos dessa flagrante violação dos direitos humanos”, afirmou o secretário geral da ONU, Antonio Guterres, por meio de um comunicado.

O governo da Etiópia declarou a mutilação genital feminina ilegal, mas, ainda assim, ela continua acontecendo. Addu Abdala Dubba era uma das mulheres que costumava realizar as circuncisões:

– Houve momentos que eu executei cortes consecutivos em um único dia com essa faca. Mas, cuidadosamente, esterelizei o instrumento após cada circuncisão colocando-o no fogo ou mergulhando em água quente, a fim de evitar infecção.

Addu Abdala conta que certa vez pensou que o trabalho lhe dava um sensação edificante, achou que estava ajudando mulheres a preservarem sua vingindade e permanecerem fiéis ao casamento- visto como essencial para a honra da família. Mas depois de participar de treinamentos pelo governo e líderes religiosos ela afima que, agora, não enxerga as coisas dessa forma.

– Agora entendo que essa prática é errada e pode destruir o futuro de uma criança- diz ela, que agora é parteira e ajuda a conscientizar sobre os danos da mutilação genital.

HOSPITAL SOFRE COM FALTA DE RECURSOS

O único hospital primário em Asaita, antiga capital de Afar, luta para cuidar de mulheres que têm complicações decorrentes da mutilação genital, especialmente durante o parto. A falta de fundos forçou o hospital a operar com equipe reduzida durante a maior parte do ano passado.

Saleh Yusuf Imam, diretor médico, afirmou que o serviço de aconselhamento do hospital tem tido algum sucesso na conscientização das pessoas.

– Depois que as mulheres enfrentam dificuldades com a penetração sexual e recebem incisões na vagina para livrar da dor e aconselhamento pós-tratamento, ouvimos da maioria que não deixarão que mais nenhuma mulher que conheçam sofra mutilação genital- relata. – Mas ainda há um longo caminho para mudar as atitudes das pessoas.

Já Kedija afirma que está determinada para impedir que outra geração de meninas sofra como ela:

– Sempre que encontro um pai que insiste em praticar mutilação genital feminina, tento convencê-lo do contrário. Mas quando meus esforços não são suficientes para mudar a cabeça deles, então eu sempre denunciou às autoridades de saúde locais para que possam intervir.

Por: O Globo

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