Nós Não Nascemos da Costela de Adão…

Nós não nascemos da costela de Adão. Rejeitamos afirmações como estas, que só legitimam a dominação masculina sobre nós, mulheres. Somos seres dotadas de capacidades, possibilidades e só queremos ser tratadas com o respeito merecido e não com a violência a qual somos submetidas todos os dias.

E todos os dias assistimos a mídia a divulgar mais um caso de feminicídio no Estado e/ou país, no qual estamos sendo mortas por nossos companheiros, ex-companheiros, namorados, ex- namorados e “ficantes”, pai, irmão, vizinho e tudo isso pelo simples fato de sermos mulheres. O nome disso é feminicídio, isto é, quando nossas vidas são tiradas pelo simples fato de sermos mulheres.

O Brasil detém o 5º lugar em índices de feminicídio. Em Salvador, no ano de 2015: foram 27.090 registros de violências contra as mulheres – 75 casos por dia, sendo que desses, 69 feminicídios e 531 estupros, dados da Secretaria de Políticas para Mulheres – SPM.

Muitas pessoas afirmam acreditar, ter a violência contra a mulher, aumentado nos dias atuais, porém, não entendemos ser, bem esta, a questão. Acontece termos hoje, segundo dados divulgados pelos meios sociais e pela mídia, uma lei de enfrentamento a estas violências e as diversas campanhas para combate a proliferação e aumento de tais violências contra a mulher, o que nos coloca a par destas ocorrências. Logo, estamos divulgando mais, deixando a sociedade conhecer ao que somos submetidas. Temos uma Central de Atendimento à Mulher – Disque 180 e podemos ver esta realidade sendo colocada, para que todas/os entendam, conheçam os dados alarmantes apurados e se juntem a nós neste enfrentamento.

Neste dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, um dia de reflexão, iniciamos os 21 dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. No Brasil, a campanha inicia-se nesta data por entendermos sermos nós, as mulheres negras, as que mais sofrem todos os tipos de violências impetradas às mulheres. Evidente que todas as violências enfrentadas, por nós mulheres, a exemplo das violências: física, moral, sexual, patrimonial e psicológica, não são inerentes, apenas, a nós negras, essas violências estão para todas as mulheres negras e não negras e precisamos denunciá-las, precisamos nos fortalecer, cuidar mais uma da outra, amar mais a outra, não enxergar a outra mulher como uma inimiga e sim como uma irmã, respeitando suas escolhas sem julgamentos de valores e apenas apoiá-la.

Precisamos estar unidas a favor da legalização do aborto, afinal este corpo é nosso e não são os homens que tem o poder ou o direito de decisão sobre ele; precisamos ser ouvidas e ter nossa voz respeitada. Quando um punhado de homens toma decisões sobre nosso corpo, podemos ver o quanto o machismo e o patriarcado ainda está presente em nossa sociedade, mesmo quando muitos insistem em dizer que não; quando um homem se acha no direito de nos gritar e agredir, é este machismo e patriarcado que os legitimam para ter esta atitude.

Estamos juntas, prontas para dar um basta nesta necessidade de tomar ações e decisões por nós como se não tivéssemos a capacidade de pensar ou decidir. Chega de gritos, chega de empurrões, chega de nos fazer chorar e sofrer, chega de sermos tratadas como cidadãs de segunda categoria, temos direitos e queremos reivindicá-los, agora.

Nós mulheres negras queremos as presidências, diretorias, secretarias e todo o poder o qual, sendo bom para os homens, serão bons e importantes, também, para nós, porque temos capacidade intelectual e moral para estarmos em quaisquer cargos de poder e de decisão, queremos direitos iguais, cor da pele e/ou gênero não definem capacidade, intelecto e muito menos meu caráter.

Neste momento, dizemos basta a todo tipo de violência contra nós mulheres, dizemos basta à transfobia e lesbofobia que vem matando nossas irmãs. O número de mulheres trans e travestis mortas aumenta todos os dias e a sociedade permanece calada a todos estes dados, também, precisamos denunciar. Seguiremos unidas em prol de dias melhores e da erradicação do machismo e do patriarcado a que somos submetidas e não nos permite viver como queremos.

Só queremos o direito de continuarmos VIVAS e de decidir sobre nossos corpos.

Valeu Dandara, Aqualtune, Luiza Mahin, Tereza de Benguela, Maria Felipa, Lélia Gonzalez e toda nossa ancestralidade feminina!!!

Queremos ver VIVAS e dizer: VIVA a todas as mulheres negras.


Iraildes Andrade
Coordenadora Nacional do CEN –Coletivo de Entidades Negras
Bacharela em Estudos de Gênero e Diversidade pela UFBA;
Ekedji da Casa de Oxumarê
Facilitadora na Secretaria de Políticas para Mulheres-SPM

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