O dia das mães e a afetividade das mulheres negras

Texto: Mirts Sants / Edição de Imagem: Pedro Borges

Em pleno século XXI me angustia a ausência de imagens positivas da família negra e especialmente da mulher negra nas mídias, seja na publicidade, jornais, tv, e até mesmo nas redes sociais, em páginas que não tratam especificamente as questões raciais. Numa simples busca no banco de imagens do Google, quando digitamos a palavra “mãe”, a ausência de imagens de mulheres não brancas com seus filhos é absurda, assim como quando digitamos a palavra “casamento”. Não há casais negros, seja hétero normativo ou não. Isso nos confirma que, para a comunicação, as mulheres negras não estão relacionadas ao amor, à família, e muito menos à afetividade.

Bell Hooks, no seu texto traduzido “Vivendo de Amor”, diz que “Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso”.

Essa é a primeira imagem que aparece no Google quando se digita “família”.

O amor por muitos séculos foi um direito negado na vida das mulheres negras, pois desde a escravização, seus corpos ainda jovens eram constantemente violados por seus senhores, enquanto que as relações com o homem negro escravizado eram proibidas. Durante o dia as mulheres estavam nos afazeres da casa grande, e os homens no trabalho pesado no campo. À noite, eram presos nas senzalas, o que dificultava qualquer manutenção de bases familiares.

Isso sem contar que o tráfico de escravos vendia mulheres e homens como mercadorias para diferentes donos, separando seus poucos laços afetivos. A relação com os filhos também eram frequentemente quebrada antes, durante e depois do seu nascimento, pois as mães negras, quando não eram forçadas a abortar seus filhos, frutos de estupros e relações indesejadas, deviam deixar de amamentá-los para assim alimentar os filhos das sinhás.

Esse triste histórico nas relações humanas da constituição da “família negra” muito contribuíram para destruir a capacidade de  manter relações afetivas por parte das mulheres negras e seus iguais naquele período. Os reflexos disso podem ser sentidos ainda hoje.

As trocas de carícias por casais negros sofreram preconceitos por séculos, onde pessoas negras eram violentamente agredidas por simplesmente demostrar amor em público, situação comparada a como hoje são vistas as relações homo-afetivas. Nos anos 90, o Movimento Negro Unificado (MNU) lançou uma campanha intitulada “Reaja à violência racial: Beije sua preta em praça pública”. Ainda hoje as carícias entre pessoas negras não são vistas totalmente como uma relação “normal”.  Mesmo assim, muito se conquistou pelo direito da construção das subjetividades da família negra.

As mulheres negras sempre são vistas e muitas vezes até “parabenizadas” por sua força, resistência e luta, devido a sua “capacidade” de sobrevivência mesmo diante de todas as adversidades e condições sociais em que se encontram. Porém, essas diferenças não são sanadas e sequer dirimidas, assim como, seus corpos continuam a ser violentados e violados de diversas formas ora pelo estado, ora pela sociedade racista, machista e homofóbica.

Daí nos perguntamos: porquê ainda mães/pais e crianças negras não estampam propagandas como a do dias das mães das grandes marcas do mercado? E quando aparecem, chegam a causar espanto pela raridade, assim como, por muitas vezes não serem consideradas belas o suficiente para serem capa de “revistas de pais e filhos”. A exceção é quando a filha/o é adotivo de alguma famosa da novela.

Já quando falamos de violência, o corpo das mulheres negras se torna algo público. Somos violentadas sem despertar qualquer comoção nacional da sociedade, desde a violência doméstica, obstétrica, simbólica, assim como, a violência policial, cada vez mais frequente como foram nos casos da Mãe Cláudia Ferreira da Silva, baleada, arrastada e morta por um carro da polícia em 2013 no RJ e da irmã Luana Barbosa dos Reis Santos, covardemente agredida e morta pela policia de Ribeirão Preto-SP no mês passado. Isso sem contar os casos que na maioria das vezes não tomamos conhecimento, quando estes corpos são violados e ocultados, como se ninguém fosse reclamá-los.

O amor nos convida a ir para além da sobrevivência. Segundo Bell Hooks, precisamos “reconhecer a necessidade de conhecer o amor”, seja pelos filhos/as, pelos pais, irmãos/as, companheiros/as e por toda a comunidade negra. Faz-se necessária a convivência negra em sua plenitude para que a afetividade através do amor e do respeito, nos cure das cicatrizes deixadas na alma pelas chibatas da escravidão e consequentemente pelo racismo cotidiano a que estão sujeitos mulheres, homens e crianças.

Quanto à ausência de representatividade positiva da família negra nas mídias ainda nos dias atuais, precisamos romper com essa invisibilidade da nossa imagem ligada ao afeto. Para tanto, antes de tudo, temos que radicalizar boicotando as marcas de produtos e bens de uso e consumo que não nos veem como consumidores de sequer um sabonete, assim como propõe a campanha #NãoMeVejoNãoCompro. Devemos também exigir nossa representação nas propagandas impressas e digitais, oficiais ou não, além de entupir as mídias sociais com imagens da nossa estética, beleza, cultura do nosso povo e do quanto somos carinhosos, afetuosos e sim capazes de amar, e amar nossa imagem e semelhanças, amar nossos filhos/as, companheiros/as.

Mirts Sants é formada em Direito e graduanda em Letras. É membro do Coletivo Negrada, do Movimento de Mulheres Negras Capixabas e integra a Executiva Nacional da Organização do EECUN.

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