O fechamento de restaurantes populares e o risco de anulação dos ganhos sociais

Por Mônica Francisco*, Jornal do Brasil

Por conta de todos os acontecimentos que vêm se sobrepondo a questões fundamentais para a diminuição da desigualdade histórica e crônica em nosso país, pela velocidade com que os fatos e as situações cotidianas se desenrolam, nossos olhares vão sendo traídos e verdadeiras injustiças vão se somando às já existentes.

A triste notícia de que, por falta de pagamento pelo governo do Rio de Janeiro, houve o fechamento dos restaurantes populares da Central do Brasil, de Bangu, da Cidade de Deus, do Méier e de Itaboraí nesta segunda (18), veio ao encontro da luta histórica pelo direito de se poder ter pelo menos uma refeição ao dia, como um dos mecanismos de implementação da Lei de Segurança Alimentar.

Um amigo postou em sua rede social que esta medida é um duro golpe naqueles que nunca conseguiram sair da sua condição e que garantiam pelo menos uma das principais refeições diárias.

Concordo quando ele cita que talvez esse fosse para muitos, e certamente era, a garantia de manter um pouco da sua dignidade e da possibilidade de sobrevivência. Para além disso, vi há alguns dias que muitos dos trabalhadores e trabalhadoras que estão em busca de emprego, também se utilizavam destes restaurantes populares para alimentar-se.

Cerca de 12 mil refeições não serão mais servidas. Cerca de 12 mil pessoas deixarão de comer, talvez mais. Mais famintos, mais doentes, menos dignidade e um país que mostra seu lado mais sombrio, o de priorizar cada vez menos as pessoas. Fomos o país que a partir da luta de Herbert de Sousa, sociólogo engajado na luta pela erradicação da fome no Brasil, dentre tantas outras importantes lutas que assumia, e sem dúvida uma das mais ferozes, vimos também a nossa nação sair no ano passado do Mapa da Fome no mundo.

Em silêncio, em baixo tom, meio tímida, a notícia foi trazida a nós, salvo raras exceções. Hoje, com situações como a do estado do Rio de Janeiro, corremos o vergonhoso risco de caminharmos a passos largos para a anulação de ganhos tão significativos como esse.

* Mônica Santos Francisco – Consultora na ONG ASPLANDE, Colunista no Jornal do Brasil. Coordenadora do Grupo Arteiras.

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