O FEMINISMO E A RAIVA

Na história do feminismo, a propaganda contra o termo foi tão grande que até pouquíssimo tempo atrás era muito fácil achar mulheres que se recusavam a se chamar de feministas, mesmo defendendo e lutando por direitos iguais entre gêneros. A imagem construída pelo patriarcado era sempre a de que feministas eram mulheres não depiladas, que não gostavam de homens, que não faziam sexo e estavam sempre muito bravas.

Eu nunca me identifiquei com qualquer parte dessas descrições (embora todas sejam bem ok para mim), até que um dia um amigo me disse que achava que eu “falava de feminismo com muita alteração” e que “queria um mundo igualitário com mais amor”. Foi aí que eu percebi que, sim, eu falava de feminismo com raiva. E quase todas as minhas amigas feministas também. Apesar de achar que quanto mais amor melhor, que o mundo está muito cheio de ódio, etc, etc, etc, acho também que é muito fácil pedir calma quando não se sofre asconsequências do machismo no seu dia a dia.

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O amigo em questão é homem, branco e hétero. As injustiças do nosso machismo de cada dia podem até fazer parte da vida dele, ele pode até achar tudo um absurdo, mas ele nunca foi diretamente afetado por elas. Ele nunca precisou atravessar a rua por medo de não sobreviver a um grupo de homens. Ele nunca precisou ouvir uma cantada grosseira a caminho do trabalho e engolir um bolo de raiva por ter medo de responder e ser agredido. Ele nunca precisou repensar a roupa que ia usar porque o lugar podia ser perigoso. Ele nunca teve um amigo estuprado e soube a sensação de não poder fazer nada. Ele nunca sofreu machismo e é o sofrimento que traz essa raiva – que ele critica e não entende.

Fora essa falta de empatia, tão presente no núcleo masculino, a gente ainda tem um sopro de machismo por trás – que podia passar totalmente despercebido. Por que mulheres com raiva incomodam tanto? Mulheres são ensinadas a ter fala mansa, a não falar palavrão, a não fazer gestos muito bruscos, a serem delicadas, a serem obedientes. Qualquer emoção que saia dessa redoma de puritanismo onde colocaram a gente é mal vista – e adivinhem só onde está a raiva?

Incomodar-se com uma mulher irritada, taxar de louca, é colocar um megafone nessas expectativas machistase reverberar para o mundo. É dizer que você espera que ela se comporte exatamente como o patriarcado diz que ela tem que fazer – fora que, cabe dizer, o sexo descontrolado que dá murro na cara, saca arma e atira em acesso de raiva não é o nosso.

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Agora, a pergunta que não quer calar: alguém já viu alguma revolução ser feita com flores? Com fala mansa? A primeira revolução feminista veio no século 19 com mulheres se colocando como seres pensantes. A segunda veio para queimar os sutiãs e dizer que a gente vai fazer o que bem entender da nossa vida. A terceira está vindo para mudar o mundo.

Esses últimos 50 anos, desde que as nossas avós entraram no mercado de trabalho e a gente viu que a mudança não é tão fácil quando o comando ainda está na mão de pessoas machistas, ainda estão entalados na nossa garganta.

Então, vai ter grito sim e vai ter alteração sim. Homem nenhum precisa engolir a própria raiva, a gente também não vai mais engolir a nossa.

Feminism

_ a Iana Villela é feminista e agora escreve aqui no Modices toda semana sobre o assunto e outros ismos importantes _

Nota de Editora: Vale dizer que o conceito de raiva feminista é especialmente castrador e prejudicial em relação às mulheres negras. O clichê da mulher negra raivosa (angry black woman) é um conceito bastante discutido e debatido, principalmente nos EUA, mas já há bastante tempo falamos dele no nosso país.

“O estereótipo da ‘negra raivosa’ é usado para silenciar mulheres negras que denunciam o preconceito e discriminação as quais estão submetidas. ‘Se mulheres negras não são representadas como hiper-sexualizadas, ladras de homens ou doces amas com cuidado ilimitado para dar aos nossos patrões brancos, somos um grupo colérico conhecido como Negras Raivosas’, escreve Huda Hassan” 

Fonte: http://modices.com.br/comportamento/feminismo-comportamento/o-feminismo-e-raiva/

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