O QUE VOCÊ FAZ COM O SEU PRIVILÉGIO?

Ninguém tem culpa de ter nascido e ter sido criado de forma privilegiada. O privilégio tem inúmeras camadas e muita gente goza de alguns tipos de privilégio e de outros não. Há por exemplo, o inegável privilégio de classe. Ele é mensurável, palpável e, portanto, mais fácil de ser aceito em sua existência do que outras formas de privilégio. Muitas vezes, as pessoas que nasceram em classes privilegiadas aceitam mais fácil o próprio privilégio porque o justificam com conceitos práticos (e discutíveis) como a meritocracia. Quando você tem a sensação e se convence de que seu privilégio foi alcançado e merecido, é muito mais fácil aceitar a existência dele, porque é uma existência sem culpa. Afinal, o outro provavelmente não se esforçou o suficiente ou não soube aproveitar momentos de sorte como você. Então, você reconhece que o outro é desprovido de privilégio e até tem pena dele e o ajuda.

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Quando falamos de privilégio de raça ou gênero a coisa muda. Esses privilégios são menos palpáveis, principalmente e obviamente para quem (acha que) não vive nenhum tipo de consequência deles. E sim, dá para entender. Como eu disse antes, ninguém tem culpa de ter nascido como nasceu, ninguém escolhe nascer homem ou branco. Além disso, todo mundo, não importa a carga de privilégio que possui, tem a sua própria história com suas dores pessoais, suas próprias pequenas tragédias que definem boa parte da personalidade. E não tem nada que as pessoas detestem mais do que ouvir que as dores que elas sentem são menores que as do outro. É um pensamento simples que vejo muito privilegiado ter: “nada caiu no meu colo, tive que trabalhar, brigar e estudar, tive que pegar ônibus, acordar antes das 7 da manhã, já fui assaltado três vezes, já fui maltratado em um restaurante, já fui mal atendido em loja, não enxergo como eu possa ter privilégio”.

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E pra isso, eu tenho uma resposta também muito simples: nada disso aconteceu porque você nasceu homem, ou porque você nasceu hétero, ou porque é branco ou porque você está confortável com seu próprio gênero.

Mulheres sofrem violência apenas por serem mulheres. Gays sofrem violência apenas por serem gays. Negros sofrem violência apenas por serem negros. Se você não sofre violência/abuso/preconceito por causa do seu gênero, sua orientação sexual, sua cor, sua religião, sua raça, sua origem, você é privilegiado. Você não precisa ser opressor pra gozar do privilégio, você não precisa ser homem/branco/cis/hétero, você não precisa machista. Para gozar dos privilégios sociais, você só precisa que alguma dessas coisas não aconteça com você.

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Eu sou mulher e sou oprimida por isso. Mas me beneficio todos os dias, todas as horas e involuntariamente de ter nascido numa família rica, de ser relativamente magra, de ter o cabelo liso, de me identificar com o gênero que me foi imposto, de ser hétero. Isso significa que quaisquer dos meus discursos – por mais feministas, embasados, engajados, bem argumentados e carregados de empatia que sejam – serão sempre escritos através da ótica privilegiada que eu vivo e na qual eu nasci e fui criada.

É importante entender qual é o tipo de privilégio que você goza para não sair por aí fazendo discurso de ódio travestido de opinião. Como disse a Daniella, no grupo do Modices: “Quando o assunto não é sobre você, você abaixa a pilha de livros e escuta o que o protagonista da opressão tem para te ensinar.” Não é direito seu definir qual é a dor do outro e não cabe a você dizer que as experiências do outro não são válidas porque não foram vividas por você.

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O grande problema hoje é que, apesar de estarmos finalmente começando a conversar sobre opressão de raça e gênero, essas conversas ainda são enraizadas em noções e estruturas em que o privilégio significa dominância e poder. Quando muito dos argumentos ainda são centrados na experiência do privilegiado, a dor do oprimido é silenciada e desvalorizada. Afinal, é muito menos doloroso para o opressor desconfiar e problematizar a afirmação do oprimido do que ter que lidar com ela. É muito mais fácil para o privilegiado mudar o foco da discussão e se fazer de vítima para não ter que fazer o esforço de mudar um comportamento próprio. É muito mais importante para o privilegiado bradar o seu desconforto com a história do outro, do que ouvir o que o outro tem a dizer.

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É muito mais simples negar que a violência e a opressão existem além do que você consegue ver, do que fazer o exercício de enxergar além da sua própria dor. Difícil é descer o degrau do privilégio. Difícil é reconhecer o seu privilégio, entender o que ele faz para você e o que ele faz com o outro. Acredita aqui: existem muitas outras formas de opressão além das que você sofre e isso faz com que as suas experiências não sejam universais. Pare, ouça e pergunte ao oprimido: o que eu posso fazer com meu privilégio?

E você? Faz o que com o seu privilégio?

Fonte: http://modices.com.br/comportamento/o-que-voce-faz-com-o-seu-privilegio/

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