O Rio será o centro do mundo. Quem sangrou para que isso fosse possível?, por Leonardo Sakamoto

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A partir de hoje, o herói será um nadador, uma centroavante, um ginasta, uma esgrimista, um maratonista, uma jogadora de basquete.

Ayrton Senna ocupou espaço de mártir na Globo quando a seleção brasileira de futebol (que é a heroína de plantão) estava em baixa.

Quando um grande empresário morre, há um esforço para que ele se torne a referência que não foi em vida e virar nome de avenida, ponte e hospital.

Cineasta tupiniquim com chance de ganhar Oscar também entra no bolo.

Movimentos sociais adoram cultivar heróis, mesmo que trabalhadores anônimos morram todos os dias e sejam tão “santos” quanto.

Até usineiros já foram chamados de heróis da nação pelo então presidente Lula.

Alguém vai me tacar uma pedra por colocar um ídolo do esporte, um usineiro de cana e cineastas no mesmo bote. Mas não estou discutindo qual o melhor tipo de herói, apenas dizendo que criamos muitos, sem nenhum constrangimento ou, às vezes, sem intenção.

Perguntei a um amigo que cobre a área de esportes, quantos heróis são “fabricados” por ano na área. Ele respondeu dizendo que os exemplos de superação pessoal são os pinçados com mais frequência.

Seguindo essa lógica, já apresentei aqui um nome para que fosse incensado – nem que fosse por 15 minutos: Antônio. Ele acorda às 5h da manhã, junta suas coisinhas, pega duas conduções e vai até Santo Amaro para vender café da manhã na rua. Depois, quando os clientes desaparecem, é hora de começar a trabalhar o serviço de pintor, bico que rende algo no final do mês mas que sinceramente não vale a pena – mas como ele tem três crianças e uma mulher com câncer em casa, que luta há anos para não morrer na rede pública, pois não tem acesso a hospitais caros, é o jeito. À noite, acende o fogo e começa a vender churrasquinho no ponto de ônibus para completar a renda. Chega em casa cinco horas antes de ter que acordar novamente. Como mora perto do autódromo de Interlagos, pôs sua churrasqueira perto de casa para conseguir algo em um final de semana lotado. A Guarda Civil Metropolitana levou tudo embora.

Como ele ia trabalhar no dia seguinte? Sei lá. Superação.

É claro que ninguém gostaria de seguir o exemplo de Antônio. A sua vida não tem glamour e sua mulher, quando teve um problema sério e quase perdeu o braço, não pegou helicóptero, mas sim um busão para ir ao pronto-socorro. Uma merda, para ser curto e grosso.

Não adianta dizer que ele é feliz, que ele tem Deus no coração, que a família o ama. Isso é apenas jogar purpurina em cima da merda.

É Antônio, mas eu podia colocar aqui uma lista de nomes, grossa como uma enciclopédia, de pessoas que aceitam a mesma batalha no dia a dia porque se desistirem, morrem – e nunca ganharão uma medalha por isso.

Pelo contrário, são tratadas como restolho da sociedade, mão de obra barata, voto fácil, massa burra, pelas elites econômica e política. Apesar de servi-los, alimentá-los, transportá-los, enriquecê-los. Se usineiros são heróis, cortadores de cana são o que? Deuses?

São as famílias da Vila Autódromo, que foram expulsas para dar lugar ao “espírito de união dos jogos”. Foram os operários que se esfolaram por menos que o justo nas obras que serão “o legado do Rio”. Ou as comunidades que foram exploradas a milhares de quilômetros de distância para garantir a madeira, o aço, o couro que estiveram na construção do “sonho olímpico”. São as periferias e morros que, vigiados pelas Forças Armadas, pela Força Nacional e pela Polícia do Rio, seguirão o script sob fuzil na cabeça para que “o mundo veja como unido é este país”.

Na hora em que o nome de qualquer um desses, cuja desgraça é apenas um detalhe do sistema e por isso mantém-se escondida embaixo do tapete, for retirado das entranhas da sociedade, e gritado a plenos pulmões como alguém que merece ser um herói, não precisaríamos mais de heróis.

Atletas são pessoas que fazem feitos incríveis. Mas não são heróis. Cada um deveria saber que pode ser o herói de sua própria existência.

Se isso acontecesse, a vida, enfim, seria outra.

Esperemos que os livros de história e nós, narradores da contemporaneidade (não apenas os profissionais de comunicação, mas todos os que têm uma conta de rede social, um blog, uma rádio comunitária ou um jornal mural e, portanto, tão jornalistas quanto os outros), tenhamos a decência de registrar que não foram apenas atletas, presidentes, juízes, governadores, reis, ditadores, pilotos, jornalistas, bispos e famosos, que fizeram a realidade do nosso tempo mas, sim, o conjunto dos carregadores de pedra, como diria José Saramago.

Talvez seja bobo demais lembrar de Bertolt Brecht quando pergunta quem faz a história: “Um grande homem a cada dez anos. Quem pagava as despesas?”

O Rio será o centro do mundo. Quem sangrou para que isso fosse possível?

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