Ocupar para resistir

Sepultar jovens nos leva a um sentimento de subversão de uma ordem cronológica pensada como natural. Algo que vem sendo naturalizado em nossa sociedade, sobretudo quando observamos a morte da população negra, pobre e LGBT.

As práticas de violência são um sintoma de uma crise social sem par. Uma sucessão de atos praticados contra a juventude, pelos motivos mais banais. Mas em se tratando do crime cometido contra o jovem Leonardo Moura, no Rio Vermelho, neste último final de semana, entre tantos outros crimes homofóbicos nos choca pelo nível de ódio que se apresenta num cenário social, fruto de construções que não se permitem a falar sobre diversidades.

Construções estas que se pautam pelo padrão hetero normativo como único e absoluto na construção de uma sociedade, que desde sempre esteve composta pela diversidade de afetos entre pessoas que desejam gozar do direito a serem felizes em suas relações.

Imaginar a crescente onda de crimes contra a população LGBT em Salvador e, por conseguinte no estado da Bahia, revela que precisamos modificar a lógica e produzir debates em todos os espaços desta sociedade, o que amplia a provocação aos que ocupam o legislativo sobre a não inclusão das temáticas sobre diversidade de gênero nos planos municipais e estaduais de educação, sendo esta uma questão que produz impactos diretos na segurança pública.

Lamentar a morte de mais uma pessoa da população LGBT é imputar a responsabilidade por esta àqueles que negam a necessidade de debatermos estes temas, sustentados em padrões quase sempre impregnados pelo fundamentalismo religioso ou falso moralistas. Produtores de um adoecimento que vem sendo ignorado durante os processos eleitorais, inclusive devendo ser considerado no pleito que se aproxima – precisamos atentar para quem iremos conduzir às Câmaras Municipais este ano.

Principalmente se considerarmos o quanto aquela casa falhou durante a aprovação do último Plano Municipal de Educação – PME em Salvador, revelando que sua atuação no papel de construir marcos legais que deem conta de todas as identidades presentes entre seus munícipes, foi contaminada, sobretudo pelo ódio pregado pelo fundamentalismo cristão de muitos vereadores e que se expande em espaços do legislativo Brasil á fora.

Tais ocupações vêm revelando o despreparo de muitos, e por que não dizer a estupidez dos que conduzem tais espaços enquanto ocupam suas presidências, quase sempre trocadas por acordos que não favorecem outra coisa além das aprovações mais estapafúrdias e imorais, a exemplo do PDDU da capital baiana. Seria ingênuo dissociarmos a exploração que se faz da cidade neste processo de gentrificação e violência. As elites ditam os que podem estar e onde estar. Chega de guetos, queremos cada rua, cada praça, cada avenida como nosso espaço.

Manifestarmos-nos é fundamental, sobretudo quando estamos em meio a um governo interino golpista que se formata num padrão racista, machista, heteronormativo, incapaz de produzir a garantia de direitos – antes reduz aqueles já conquistados por anos de lutas destas populações mais vulnerabilizadas.

O CEN não traz a questão, apenas comovido pelo momento em que muitos da mídia se atropelam para noticiar um fato pensado como um furo de reportagem policial, mas por reconhecer este fato como algo que fere nossa carne composta de todos que trazem em suas identidades a essência que se apresenta como LGBT, assim como pessoas negras que formatam a raça humana.

Somos defensores dos direitos humanos de forma ampla, não restringindo a nossa luta apenas à defesa dos povos de origem afro-brasileira, embora seja nossa prioridade. Estamos comprometidos acima de tudo com o combate a qualquer violação de direitos, sendo o maior destes a vida, não devendo ser violada por ninguém por motivo algum.

Cada vez que se produz um novo crime por homofobia, se produz uma elevada onda de ansiedade entre os que compõem a população LGBT, repercutindo nas relações de tais pessoas consigo e para com os outros. Muito possivelmente resultando em processos psicossomáticos que se apresentam de forma crescente das patologias crônicas que paralisam muitos destes, tornando-os desacreditados das suas possibilidades de manifestação e resistência.

Precisamos rever o conceito de sociedade se quisermos preservar a vida humana, haja visto que o número de LGBTs assassinados no mundo por lgbtfobia já se aproximam às baixas por guerra travadas em alguns países. Não que esta não seja uma guerra a ser travada, pelo respeito ao direito de ser diferente ainda que tentem deixar de reconhecer-nos como iguais enquanto seres humanos.

Não admitiremos nenhuma perda a mais. Basta! Basta! Basta!

Gabriel Teixeira
Psicólogo Social e membro do CEN – Coletivo de Entidades Negras.

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