Pode me chamar de Afrontamento: entrevista com Tássia Reis

 

“Com o afro alaranjado, chegando no talento, gritando mãos ao alto e atirando argumento”, a rapper Tássia Reis fala de racismo, feminismo e empoderamento das minas.

As tranças brilham, coloridas, escorrendo pelos ombros negros de Tássia Reis, praticamente seguindo a intensidade do brilho no olhar forte e do sorriso aberto que ela lança para quem a observa. Nascida em Jacareí, no interior de São Paulo, Tássia esbarrou na música muito cedo. Logo na infância, observava o pai – que tinha um grupo de dança – colocar nos toca-discos os vinis de James Brown. As influências que carrega desde essa época podem ser sentidas no seu primeiro EP, em que mistura soul, blues, jazz e rap, com letras que falam sobre liberdade, afrontamento e empoderamento.

Rap, Jazz, mulheres no front

É impossível não pensar nas “divas do jazz” quando Tássia canta, forte, melódica e arrepiante. E a influência não era só musical. “Eu sempre admirei as divas do jazz, por serem negras, mulheres e terem aquelas vozes maravilhosas”, conta. Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Aretha Franklin, Etta James – as damas do jazz estadunidense não ficam em nada atrás da cantora de “Meu Rapjazz”. A identificação é ainda mais forte no sentido do combate às dificuldades: “Tento carregar um pouco delas em mim. Também sou preta e também fui desacreditada de alguma maneira, como todas elas”, afirma Tássia.

Para todas essas mulheres, o caminho era ainda mais estreito por se tratar de gêneros musicais predominantemente masculinos. O Rap sempre teve mulheres em todos os seus elementos – nas rimas, nos toca discos, no break e no graffiti -, mas a elas era negada a “linha de frente”. Espaço para shows, motivação e apoio eram negados ou simplesmente ignorados. A solução? Meter o pé na porta. “Precisamos destruir a ideia machista de que só brigamos entre nós. Para a cena existir, é preciso que todo mundo colabore”, explica Tássia.

“A música é o amor da minha vida, mas foi uma oportunidade que eu inventei.”

Hip Hop das minas

Foi com apenas 14 anos que a cidadã de Jacareí conheceu a cultura Hip Hop. Graças a uma oficina de dança na cidade, encontrou as festas abertas de Hip Hop do final dos anos 90. “Tem um monte de gente que parece comigo, que anda que nem eu, de periferia, que tem a mesma cor, que usa o cabelo crespo como o meu, e eu achei meu lugar. Me senti inserida em alguma coisa pela primeira vez”, sintetiza. A oportunidade fez com que ela passasse a frequentar mais os bailes e se expressar artisticamente através da dança de rua. Alguns anos depois, começou a rimar – fazia freestyles. Mas evitava as batalhas porque o machismo já incomodava, sorrateiro -, e com 21, surgiram as primeiras canções.

Em “Afrontamento”, clipe lançado no início do ano em conjunto com DJ Dedé, também nascido no Vale do Paraíba, Tássia aborda o racismo e o machismo de forma escancarada em suas faces mais cruéis. “Quer saber o que me incomoda, sincero/É ver que pra noiz a chance nunca sai do zero./Que se eu me destacar é pura sorte jão,/Se eu fugir da pobreza, eu não escapo da depressão./Um quadro triste e realista, na sociedade machista, as oportunidades são racistas./São dois pontos a menos pra mim,/é difícil jogar quando as regras servem pra decretar o meu fim”.

Para a rapper, o recorte de gênero e racial tem ficado cada vez mais presente em suas canções, e tudo isso tem a ver com um racismo também estrutural, que começa na infância, degolando oportunidades e pisando em sua história. “Ninguém chega na escola e fala pra você ‘você é negro, vai acontecer um monte de coisa com você’. Ninguém fala dos seus ancestrais, sua origem, ninguém conta sua história e você fica fraco diante da sociedade”, revela. Sobre isso, ainda esclarece que também não conseguiu ser o que queria há muitos anos atrás. “Eu estudei Design de Moda, mas não consegui entrar no mercado de trabalho, ter um estágio. Ninguém fala que você não tem oportunidade de ser quem é simplesmente pela sua cor”, conta. “A música é o amor da minha vida, mas foi uma oportunidade que eu inventei”.

“Achei meu lugar e me senti inserida em alguma coisa pela primeira vez”

Enfrentamento ao racismo

A luta contra o racismo é presente em toda a vida e nas expressões de Tássia. Recentemente, foi apresentadora da festa “Don’t Touch My Hair”, criada por um coletivo de mulheres negras e trabalhadoras interseccionais. A estética, as letras e o empoderamento de Tássia foi inspiração para diversas mulheres que compunham o espaço. O chanel de bico com tranças laranjas brilhava como se um outdoor dissesse “você, mulher negra, é linda, e pode ser o que quiser”.

Dentro da mídia e da sociedade, no entanto, as dificuldades percalçam toda a vida da mulher negra. “Nós não somos ouvidas, nós somos preteridas na sociedade, nossos corpos são objetificados o tempo inteiro, na TV e nos jornais. Isso enfraquece muito nossa auto estima, o que faz com que minha luta seja muito maior pra que eu consiga estar aqui agora nesse palco”, declara.

Muito emocionada, a cantora fala sobre a “doença da mente” que acomete as mulheres negras: a depressão e a violência. Segundo o Mapa da Violência 2015, o número de homicídios de mulheres negras cresceu mais de 54% em 10 anos. O estudo revelou também que 27% dos assassinatos acontecem dentro de casa, 31% em via pública e 25% em estabelecimentos de saúde. Em todos eles, as maiores vítimas tem gênero e cor. “Eu cheguei aqui e quero que outras meninas como eu possam se enxergar e não se afundar nesse mar de depressão que é colocado pra gente”, desabafa. “Eu não quero que isso aconteça com mais nenhuma mulher”.

Tássia Reis é um exemplo de inspiração para meninas e mulheres que se identificam e se emocionam com suas canções e “afrontamentos”. De forma cada vez mais incisiva, desde a estética até o combate diário contra o racismo e machismo, ela deixa o recado para que as mulheres se enxerguem cada vez mais fortes: “Vocês não estão sozinhas. É clack boom no sistema”.

Fonte: http://www.fridadiria.com/entrevista-com-tassia-reis/

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