Por que empretecemos o debate sobre democracia? (Hipocrisia: a Guerra as drogas mata gente preta todo dia!)

A Iniciativa Negra por Uma Nova Política Sobre Drogas se propõe a ser uma rede de articulação de entidades e coletivos que atuem em diversas pautas na perspectiva de combate ao racismo e garantia de direitos no Brasil, pois entendemos que o racismo é estruturante na composição econômica e social de nosso país.

Surgimos olhando para os efeitos da chamada “ guerra as drogas” sobre o povo preto do Brasil, sobretudo a juventude negra, pois esses são nossos irmãos e irmãs que mais são assassinados pela polícia, que engrossam os sistemas de medida socioeducativas e cadeias do Brasil e sofrem com políticas higienistas destinadas a quem mora na rua. Assassinadxs, presxs, na rua, todos alvos de uma política de segurança pública genocida, um judiciário seletivo e um sistema de Saúde e Assistência social estigmatizador e insuficiente na atuação de quebra de ciclos de violência e “des”promoção de direitos.

Entendemos que hoje, a criminalização de algumas drogas é a principal justificativa para criminalização e militarização dos territórios pobres do Brasil; é a maior justificativa para a execução de negrxs por parte das forças de segurança pública; é a maior justificativa para a prisão de mulheres/mães e pretas, muitas vezes nunca inseridas em um mercado de trabalho formal; é a principal justificativa para os que defendem a diminuição da maioridade penal e trancafia nossos adolescentes cada vez mais cedo; é a maior justificativa para experiências criminosas de “tratamentos de dependentes químicos” em clínicas e comunidades terapêuticas.

Foi olhando para esses dados que percebemos que a atual democracia brasileira, hoje em estado de exceção, não era plena para uma significativa parcela da população negra, seja por  ser uma democracia jovem, seja pelos esforços do Estado Brasileiro que não foram dirigidos para o combate do racismo institucional e destinação de orçamento para erradicação do mesmo. Sabemos que não foi a Guerra as Drogas que inventou o racismo no Brasil, mas entendemos que não debater política de drogas em sua totalidade é um grande impeditivo de olharmos reformas estruturais que nosso país carece, pois debater política de drogas é repensar a Segurança Pública, Judiciário, Sistema de Saúde, Trabalho e Geração de renda, Assistência Social, Educação,Cultura, Comunicação….

Em tempos de avanços do conservadorismo e golpe de estado, sabemos que é importante debater as repressões das forças de segurança aos protestos, mas não só por isso, pois essa polícia sempre existiu matando nosso povo. É fundamental um debate sobre o Judiciário que não tem nenhum controle social, mas não só porque esse poder foi fundamental para o golpe, mas porque ele representa um sistema patriarcal, branco, de elite e portanto seletivo que golpeia nosso povo todo dia. Precisamos debater saúde não apenas porque o SUS está em risco, mas porque também é um sistema que reproduz racismo na prática de seus profissionais em sua maioria representados por médicos brancos e ricos. Debater os retrocessos dos direitos trabalhistas não deve ser uma tarefa apenas de sindicatos, pois desde a abolição parcela dos negrxs não ocupam postos formais do mercado de trabalho, e as mulheres negras quando ocupam são as que menos ganham. Mesmo a extinção do Ministério da Cultura, também é uma tarefa dos negros, pois a cultura dominante no Brasil sempre foi branca ou a reprodução do que os brancos pensam sobre estética e cultura de negros, sempre roubando nosso espaço de protagonismo e nos representando de maneira caricata.

Nós vemos racismo em tudo, porque sabemos que ele é uma estrutura de pensamento que promove ações racistas individuais, coletivas e de estado de maneira sofisticada, de modo que não o percebemos em sua totalidade. Não existe a possibilidade de fazermos um debate sobre um novo projeto democrático para o Brasil se não levarmos o recorte racial em consideração em todas as esferas, se não tivermos negrxs protagonizando e pensando esses novos projetos. E entendam brancos, de esquerda e ou de direita, que isso não é nenhuma concessão, pois o mínimo que se espera de projetos que se dizem democráticos é que tenhamos centralidade nas especificidades de mais da metade da população brasileira que é negra, é mais que um debate de classes, pois a classe no Brasil não é homogênea. Essa discussão é também de raça, de gênero, de classe, etária e regional.

Seguimos debatendo a necessidade de uma Nova Política de Drogas, mas para nós a centralidade nesse debate é muito mais complexa do que a mera descriminalização ou legalização de algumas drogas, pois sabemos a cor de quem tomba todo dia em nome da Guerra as Drogas/Guerra aos Pretxs.

INICIATIVA NEGRA POR UMA NOVA POLÍTICA SOBRE DROGAS – INNPD

Deixe seu comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pular para a barra de ferramentas