Porque precisamos de um dia da consciência negra?

Vez ou outra circula, em tom de crítica, uma frase debitada ao Morgan Freman que diz que precisamos de uma consciência humana ao invés da consciência negra e blablablá….

Pois bem, esse tipo de frase cai muito bem dentro de um contexto de um país que sempre pecou por jogar suas mazelas para baixo do tapete. Então sei que hoje muitos compartilharão a frase sem refletir profundamente sobre ela, apenas pela boa intenção de se construir um mundo em que a cor da pele ou origem étnica seja elemento secundário nas relações humanas. No entanto, uma rápida análise do discurso, aplicada ao caso brasileiro, joga por terra rapidinho essa frase de efeito.

Florestan Fernandes, considerado o pai da sociologia brasileira dizia que o maior problema do racista brasileiro era não ser visto como racista. Vale lembrar que o Brasil por 400 anos, importou escravos da África; foi um país onde a média de vida de um escravo era de 40 anos e criou uma lei do sexagenário (se o escravo chegasse aos 60 anos era um homem livre); criou a lei do Ventre Livre, a criança era livre, a mãe não; libertou os escravos com uma lei de três linhas e nunca discutiu o que fazer com aqueles que até ontem eram escravos, optou por importar italianos, alemães e outros povos europeus dando a eles exatamente o que se propunha que se desse aos ex-escravos, um pedaço de terra e um salário para continuar fazendo o que faziam. Esta escolha estratégica gerou milhares de homens e mulheres sem ter o que fazer, gente nas ruas sem casa, sem acesso à escola e outros tantos se submetendo a qualquer condição para sobreviver.

Em síntese, o Brasil sempre lidou hipocritamente com seus negros e com sua história. Veremos na primeira metade do século XX, uma tentativa patética do Estado brasileiro de negar seu racismo e suas consequências. Veremos uma escola de pensamento defender a mistura de gentes com uma alegria infantil, sem perceber que ali estava embutido o objetivo de invisibilizar o negro no Brasil, de tal forma que, após gerações, não haveria mais negros no país.

Ao longo de décadas vimos o país negar sistematicamente o racismo no Brasil ao ponto de negros que falavam disso serem taxados de revoltados, revanchistas e paranóicos.

Enfim, afirmar a identidade negra foi uma estratégia de contra-inteligencia vis-a-vis a negativa oficial de racismo no  Brasil.

O Brasil, com sua cultura de malandragem e malemolência usou do aparelho do Estado para negar seu racismo histórico e acabou ele mesmo, o Estado, se tornando o principal agente de racismo no país adotando a nefanda prática de racismo institucional, para esconder a presença negra no país negando a esta população acesso à educação e ao emprego, buscando a fórceps, instalar uma “democracia racial” onde é errado falar de “raça” já que “somos todos humanos”. O paradoxo virou regra e a negação do racismo virou estratégia para o fortalecimento e perpetuação deste mesmo racismo e falar dele virou mimimi.

Na contramão disso tudo, a criatividade e capacidade de luta do negro brasileiro se tornou um embate terrível com o Estado e a sociedade brasileiros, primeiro afirmando uma identidade negra. ” Negro sim”, “negro é lindo” foram campanhas pré-internet (praticamente avós da Geração Tombamento) que buscaram dar ao negro visibilidade e dizer ao Estado, “sim, nós existimos e estamos aqui”.

Depois, ações de combate às consequências do racismo institucional, tais como o acesso a serviços historicamente negados a esta população, como políticas afirmativas e outras tantas que incomodam aqueles que ainda teimam em afirmar que ” racismo não existe” e que “isso é coisa da cabeça de vocês”, mesmo havendo amostras diárias de que o racismo permeia as relações cotidianas e que é nos momentos de conflito que os atos de racismo dão suas caras.

É neste contexto que surge a proposta de transformar o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior dos quilombos, o de Palmares em Alagoas em Dia da Consciência Negra, como momento de reflexão da sociedade brasileira de sua relação com seus negros depois de cinco séculos de escravidão e discriminação. Lembrando sempre que não existe um problema do negro no Brasil, mas sim, um problema do Brasil com seus negros.

O Dia da Consciência Negra é, em última análise, o dia da consciência humana, pois humanos somos nós negros e brancos vítimas de um histórico de negação e, portanto, de pouca busca para a solução de um problema que é a gênese de todos os grandes problemas nacionais.

Quando falamos contra a sistemática prática de extermínio da juventude negra é porque temos como primeiro objetivo salvar vidas, no entanto, se se contabilizar financeiramente o custo de cada vida de um jovem negro que poderia ser um técnico, um engenheiro, um advogado, um pesquisador, veremos que o país em seu conjunto perde bilhões por ano ao dar a esses jovens um túmulo ao invés de oportunidades de aprendizado e desenvolvimento.

Aqueles que, como eu, dedicaram uma vida à luta contra o racismo e suas consequências, sonham com o dia em que baixaremos os escudos e as lanças, pois teremos atingido o objetivo final que é ferir de morte o racismo, o preconceito e a discriminação.

Enquanto isso não ocorre, os visibilizamos, pois é impossível abater o inimigo quando você nega sua existência. Até isso acontecer continuaremos a falar de racismo, comemoraremos o 20 de novembro e afirmaremos nossa identidade negra em memória daqueles que fizeram a Travessia e vieram antes de nós.

Valeu, Zumbi! Valeu, Dandara! Valeu, Abdias! Valeu, Beu, (minha mãe Lúcia), por ter ensinado a mim e minhas irmãs o valor de nossa história.

Que tenhamos todos um bom dia. Um dia de festa e alegria, pois é de celebrar Zumbi e nossa história.

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador Nacional de Política Institucional do CEN
Tel./Whats: 99919-2102

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