Quantos cadáveres de jovens negros e pobres valem uma Olimpíada?, por Leonardo Sakamoto

No blog do Sakamoto

O tráfico de drogas é a maior causa de morte entre os jovens nas periferias. Mas, na maior parte das vezes, a batalha acontece longe dos olhos da mídia, que só eventualmente dá atenção ao problema. A imensa maioria dos corpos contabilizados quase sempre é de jovens, negros, pobres, que se matam na conquista de territórios para venda de drogas ou pelas leis do tráfico. Os mais abastados sentem a violência, mas o que chega neles não é nem de perto o que a xepa é obrigada a viver em seu cotidiano.

De tempos em tempos, essa violência causada pelo tráfico retorna com força ao noticiário, normalmente no momento em que ela desce o morro ou foge da periferia das grandes cidades.

Ou, agora, em que o Rio de Janeiro está prestes a sediar os Jogos Olímpicos e o mundo se pergunta se a cidade conseguirá garantir segurança aos visitantes.

Os visitantes podem ficar tranquilos. Pois as forças de segurança são tão competentes que são capazes de acertar um tiro na nuca de um suspeito no meio de um confronto armado. E, criativos, porque se justificam depois como resistência seguida de morte.

Isso quando a execução não é descarada, descarregando todo despreparo, preconceito e ódio, como no caso dos cinco jovens chacinados pela polícia em Costa Barros, Zona Norte do Rio, 111 vezes.

A verdade é que o Rio optou pelo caminho mais fácil do terrorismo de Estado ao invés de mudanças estruturais para oferecer uma Olimpíadas com ambiente pacífico.

Ninguém está defendendo o tráfico de drogas (defendo a descriminalização como parte do processo de enfraquecimento dos traficantes, mas isso é história para outro post). O que está em jogo aqui é que tipo de Estado queremos.

Atacar a estrutura do tráfico e sua sustentação econômica, o que inclui também seus pontos de venda, o comércio ilegal de armas e negócios paralelos, é uma saída. Porém, será inócua se o Estado não se fizer presente (não pela força bruta e burra, como nas UPPs) e se não houver mudanças estruturais que garantam dignidade para os moradores e outras opções de vida para os jovens que saem em um busca de um lugar no mundo todos os anos.

Porque, mais do que uma escolha pelo crime, a opção pelo tráfico é uma escolha pelo emprego e pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida. Dessa forma, o jovem pode ajudar a família, melhorar de vida, dar vazão às suas aspirações de consumo – pois não são apenas os jovens de classe média alta que querem o tênis novo que saiu na TV.

Ganhar respeito de um grupo, se impor contra a violência da polícia. E uma vez dentro desse sistema, terá que agir sob suas normas. Matando e morrendo, em uma batalha que para cada baixa, fica uma família.

Uma batalha que respinga em nós, que temos responsabilidade pelo o que está acontecendo, seja por nossa apatia, conivência, desinteresse, medo ou incompetência. A polícia e os traficantes puxam os gatilhos, mas o “cidadão de bem” é que coloca a bala na agulha.

Discute-se, em acalorados debates na TV, se o Brasil ocupará muitos pódios. Ou se nosso futebol finalmente levará um ouro olímpico. Ou, ainda, se as arenas estarão prontas a tempo ou se o transporte público dará conta do recado.

Acredito, contudo, que nossa maior vitória como sociedade seria se nenhum jovem negro e pobre tivesse que morrer em nome da tranquilidade do mundo reunido no Rio. Mas, eu sei. Isso seria sonhar alto demais.

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