Quem precisa de cura?

Na última sexta-feira, dia 15 de setembro, a comunidade LGBTTT brasileira viu, estarrecida, um juiz em Brasília, conceder de forma liminar, o direito a profissionais da Psicologia de tratarem pacientes com desejo de reverter sua orientação sexual, indo de encontro à uma resolução do Conselho Regional de Psicologia que, desde 1999, prevê, em suas normas de conduta, a impossibilidade desse tipo de abordagem.

Não vou aqui falar do lugar do acadêmico, do líder religioso ou do militante, vou falar do meu lugar, o lugar de um homem gay, assumido, que precisou de muita força para trilhar seu caminho e construir sua história, portanto, não esperem citações ou dados científicos, até porque nem acho saudável analisar, à luz da ciência, algo que se arvora na violência e não aceitação da diversidade humana.

A decisão do juiz atende à demanda de uma ação popular, encabeçada por uma psicóloga (?), que já vinha ofertando o tratamento de reversão sexual para gays e lésbicas, alegando que a sexualidade desses indivíduos não passa de um distúrbio, chegando a ser advertida, pela prática, em 2009. A mesma comparou o ativismo gay ao nazismo e hoje atua como assessora parlamentar de uma das crias da bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala), a mais poderosa e efetiva força lobista do país.

A primeira vez que esse tema ganhou a mídia, encontrava na voz de um pastoreco neopentecostal colérico e que ganhou os holofotes com seu discurso homofóbico e a mania de chamar mulheres de vagabundas, indivíduo esse que, infelizmente, faria parte da classe dos psicólogos do Brasil e se diz graduado nessa cátedra, por uma escola confessional do RJ.

Onde eu entro nisso?

Diante desse absurdo, várias pessoas que acompanham algumas postagens que faço em minhas redes sociais, algo que acabou não acontecendo ante minha perplexidade diante desse desvario.

Na quinta-feira passada, um colega de curso postou um meme falando sobre o tema, no Instagram e um dos seus seguidores, que se identificou como ex-aluno do mesmo, e hoje, estudante de Direito, o repreendeu.

O ex-aluno disse que, a forma como as pessoas, contrárias à resolução, estavam tratando o tema, não era a correta, que o juiz apenas garantiu o direito ampliado, tendo em vista que, a acertada decisão do magistrado (segundo ele), visava apenas garantir, às pessoas, assistência profissional em caso de procurarem ajuda, para deixar de lado a angústia de serem gays…

Eu, assim como todas as pessoas, gays e lésbicas, com quem convivi e convivo ao longo da vida, nascemos como somos, sempre soubemos ser diferentes, e, essa diferença, não era evidenciada por marcadores físicos ou comportamentais.

Nasci e fui criado num ambiente heteronormativo clássico, numa época onde o binarismo de gênero era a única possibilidade, isso sempre me vem à cabeça quando ouço os fundamentalistas/homofóbicos, alegarem que queremos transformar o mundo numa ditadura gay.

O projeto de gayzyficação mundial será alcançado, se eles permitirem criarmos nossas famílias ou, através da tal cartilha que usaríamos para ensinar nas escolas, às crianças potencialmente hétero, a vir dividir, conosco, o mundo que nos odeia e tenta exterminar.

Até hoje não conheço nenhum gay criado por famílias gays, ou seja, ainda queremos roubar dos hétero o direito de pôr mais gente gay no mundo.

Minha resposta, então, é direcionada para o ex-aluno/futuro advogado de meu colega, ao tomar consciência da minha sexualidade e de minha sentimentalidade, que não atendia à norma SURPRESA!

É, temos sentimentos, amamos, nos apaixonamos como qualquer outro ser humano, não somos máquinas vorazes, nem predadores sexuais.

Voltando às minhas angustias, não comecei a ter medo quando entendi que era gay, comecei a me assustar pouco depois de descobrir minha complexidade, mas meu medo não era pelo que sentia, meu medo era de não ser aceito pelos meus, meu medo era de receber apelidos e ser apontado pela minha família e pessoas da rua, meu medo era ser tornado desigual, não por opção de transgressão da regra, mas pelo poder da aversão, do outro.

Da descoberta à libertação, se passaram quase quinze anos, foi só como jovem adulto e vivendo em outro estado que tive coragem de dizer a mim que ser feliz era o que importava, e, quem não estivesse pronto pra isso, não merecia fazer parte de minha vida e história.

Não quero dizer, com esse texto, que as coisas são fáceis, muito menos usar a singularidade da minha vida, para universalizar os sentimentos dos milhares de LGBTTT, ao redor do mundo. Ainda assim, tenho convicção que o papel de um profissional, ligado a área de saúde, seja psicólogo ou psiquiatra, tenha obrigação de ajudar as pessoas que sofrem angústia com a condição gay. Eles precisam, urgentemente, tratar todo e qualquer homofóbico, toda e qualquer pessoa que sinta-se incomodada com as inúmeras possibilidades de gente, que a natureza disponibilizou, tratar toda e qualquer pessoa que odeie a orientação sexual de outro a ponto de agredir e matar.

São esses, meu caro ex-aluno/estudante de Direito, são esses angustiados que precisam de tratamento, inclusive na forma da lei, com inclusão da Homofobia como crime de ódio. Quanto a nós, da comunidade LGBTTT, basta termos a certeza de podermos viver como qualquer outro ser humano e garantido nosso direito à vida, como a qualquer outro cidadão, assim, estaremos livres da única angústia que temos, associada à nossa orientação.


George Hora, gay assumido e sem angústias.
Licenciado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – UFBA
Mestrando Programa Multidisciplinar de Pós Graduação em Estudos Étnicos e Africanos  – UFBA/PÓSAFRO

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