Racismo e xenofobia: precisamos falar sobre ser uma mulher negra que viaja sozinha

por *Nathalia Marques no Finanças Femininas

O debate deveria ser aprofundado, com temas sobre gênero e raça, mas não é isso que está acontecendo. Diante disso, neste mês decidi ceder meu espaço aqui  para aprofundar mais a discussão sobre viajar sozinha. Para isso, convidei a viajante Paula Augot para falar sobre como é ser uma mulher negra viajante.

Boa leitura!

Eu, mulher e negra, viajo sozinha

Por Paula Augot*

Ultimamente temos falado muito sobre mulheres viajantes. Para minha felicidade, mulheres que viajam sozinhas têm sido pauta na mídia. Contudo, pouco se fala sobre mulheres negras que viajam ou mulheres negras viajando sozinhas. Junte a dificuldade de estar em um país estrangeiro com o fato de não falar a língua, ser uma mulher e ser negra. Bem-vinda à minha realidade!

Eu comecei a viajar sozinha mais ou menos como todo mundo. Fui aos poucos e para lugares mais comuns e de cultura próxima à nossa. Quando comecei a viajar por países um pouco menos batidos, esbarrei com algumas surpresas não tão agradáveis.

Quando conto sobre racismo e experiências péssimas de viagens que tive, costumo ouvir duas reações. Há pessoas que olham para mim e dizem: “Eu fui para lá e não tive problemas”. Geralmente eu refuto com: “Porque você é branca!” Há também pessoas que entendem, enxergam meu relato como conscientização e passam a ver o quão privilegiadas elas são.

Eu adoro ler blogs de viagens, além de eu mesma ser uma blogueira de viagens. Claro que leio muitos blogs de mulheres viajantes, mas falta um pouco de representatividade nesses blogs. Vou dar um exemplo: quando fui para o Japão, morria de medo de ter problemas. Afinal, li inúmeras vezes que os japoneses eram racistas, mas não consegui nenhum relato de viajante negro em blogs.

Então, como passei por isso e senti a necessidade de ter mais informações, imaginei que outras pessoas negras teriam a mesma curiosidade e esbarrariam na falta de relatos. A partir daí comecei a escrever sobre como é ser uma negra viajante em alguns países que fogem mais do roteiro comum. Comecei escrevendo sobre como é ser turista negra no Japão e Rússia.

Sabe os perrengues que todos os viajantes passam? Já passei por eles, mas alguns foram mais do que perrengues. Foram atos racistas que claramente não aconteceriam se eu fosse uma viajante branca.

Foi na Finlândia que sofri dois ataques racistas durante a viagem. Foi um dos momentos que mais senti medo na minha vida. Pensei que viraria mais uma estatística dos crimes de ódio. Mas já recebi olhares, deboche e pessoas já me deixaram bem claro que eu não era bem-vinda ali.

Medo e receio a gente sempre tem, mas não posso deixar esse medo me paralisar. Não há nada de errado comigo, mas é flagrante o baixo número de pessoas negras viajando.

Felizmente, a minha vida como mulher negra e viajante não é só de histórias tristes. Já viajei para países onde era totalmente invisível e que a cor da minha pele não fazia nenhuma diferença. Podia ir e vir com facilidade.

Representatividade importa!

Há também os países onde ser negra me ajudou muito, contei no meu blog alguns relatos sobre isso. Em especial dois lugares me marcaram: Cuba e Turquia. Em Cuba, foi incrível poder se misturar quase totalmente com a população local. As pessoas pensavam que eu era cubana e quando percebiam que eu era turista diziam que a gente tinha a mesma cor.

Eu senti que eles ficaram felizes com a representatividade, sabe? Os cubanos estão acostumados a lidar com turistas brancos, mas aquela vez era diferente. Era uma pessoa como eles, ali em posição privilegiada. Cuba foi uma viagem de identificação e muito especial para mim.

A gringa

Outra experiência surpreendente eu tive na Turquia, em Istambul para ser exata. Por ser extremamente diferente dos locais, eu era super bem tratada, já que claramente era uma turista e turistas compram!

Vendedores se disputavam para ver em que loja eu ia entrar, as pessoas vinham falar comigo nas ruas, sorriam para mim. Todo mundo queria saber de onde eu era e elogiava o meu cabelo. Eu fui chamada pelo nome de todas as celebridades negras americanas. Não por acaso, Istambul é a minha cidade favorita no mundo.

No final do ano passado, tive a oportunidade de ir mais uma vez para Istambul, dessa vez acompanhada de meu irmão, que além de tudo é rasta. Meu irmão virou a estrela da cidade, sendo inclusive chamado para tirar selfies com as pessoas. Por uma vez, os turistas e as pessoas em posição superior éramos nós!

*Nathalia Marques é jornalista de formação e conta passagens por diversos veículos de imprensa, mas foi como repórter de turismo que encontrou sua paixão. Ela também é feminista e em 2015 decidiu juntar jornalismo, viagem e empoderamento feminino para criar o M pelo Mundo, site de informações e dicas de viagem para mulheres.

*Paula é baiana e mora em Hong Kong. Já chamou de casa cidades como Paris e Londres. Hoje se aventura pela Ásia enquanto viaja o mundo. É autora do blog “No Mundo da Paula”.

 
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