Réplica do CEN rebate nota publicada por Élio Gaspari contra entidade no jornal O Globo

Na edição de O Globo deste domingo, 28 de janeiro, o jornalista ítalo-brasileiro Élio Gaspari revela profundo desconhecimento da história do Brasil e do processo de construção das relações sócio-raciais no país. O mesmo sugere que o CEN – Coletivo de Entidades Negras deu “uma bola fora”, quando associou a elite branca que condenou o ex-presidente Lula a mercadores de escravos. Para tanto, o colunista expõe sua engenhosa tese de que o juiz Moro, de Curitiba, assim como os desembargadores Paulsen, Gebran e Laus, de Porto Alegre, por serem descendentes de imigrantes, “nada tiveram a ver com a escravidão” negra no Brasil.

Gaspari, parece desconhecer (ou finge não saber) que italianos, alemães, dentre outros que aportaram no Brasil, jamais foram vistos tão somente como imigrantes, mas sobretudo como brancos. Mesmo os mais pobres tiveram acesso, em seus países, às teorias eugenistas e racialistas que contaminaram o mundo no início do século XIX. Ao socorrerem-se no Brasil, fugindo de dificuldades em suas terras de origem, esses brancos não apenas reproduziram o preconceito contra os negros, mas também o amplificaram para dentro e fora de seus núcleos.

Talvez por referendar-se em novelas da TV Globo, ou mesmo por descaso, Gaspari não tenha conhecimento de que imigrantes brancos se tornaram proprietários de escravos antes mesmo do final da escravização negra.

Aliás, não seria a própria família Gaspari uma irmandade de imigrantes brancos que exerceram tal hedionda prática? Em terra brasilis, como ela se nutriu dos privilégios e prestígios que a branquitude proporciona? Será que o jornalista também tentará nos convencer que   imigrantes que foram trabalhar na lavoura em troca de salário faziam jus a esse “direito” por serem melhores agricultores do que os negros? Ou que os negros não conheciam como arar a terra e semeá-la, mesmo o fazendo por séculos na condição de escravizados?   

Intrigante é refletir de onde veem os interesses ou intenções que transparecem na tentativa de desqualificação das falas dos Santos, Silvas ou Jesus! Será que se impregna dos privilégios que todos os brancos sempre possuíram em detrimento da população negra? Ou será o velho ranço dos(as) Senhores(as) da casa grande em arrogar superioridade tentando se utilizar de açoites, ainda que em forma de opinião? No Brasil racista, ter um discurso contra-hegemônico é colocar a bola para fora do que a branquitude considera uma boa jogada.

Entretanto, continuaremos em nossa luta contra o racismo, que a cada dia exige de nós muitas bolas foras para nossas elites conservadoras.

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