Reunúncia? Que renúncia? Mais uma vez “o coiso” tripudia sobre toda a nação

O país foi surpreendido ontem à tarde com um pronunciamento comovido do deputado federal Eduardo Cunha à Presidência da Câmara dos Deputados, a Casa Baixa (que nunca fez tanta jus a este termo) do Parlamento Brasileiro.
Seu choro comovido não comoveu ninguém. Alguns, menos desavisados, pensaram que Cunha estava renunciando ao mandato, doce e ingênua ilusão. A renúncia de Eduardo Cunha à Presidência da Câmara faz parte de um roteiro escrito a quatro mãos com Michel Temer, o presidente interino golpista, para, ao fim e ao cabo, preservar o mandato de Eduardo Cunha e sua zona de influência e poder.
Eduardo Cunha é aquilo que o saudoso jornalista germano-carioca Fausto Wolff definia como “O Coiso”; um ser indefinido e sombrio que está na origem de todos os males que fragelam a nação. O Coiso, é também, segundo Fausto Wolff, o ser abjeto que manipula as entranhas do poder a seu bel prazer e de acordo com seus mais vis e indecorosos interesses.
O Coiso é um personagem que, tal como a jabuticaba, só dá no Brasil, é fruto de um sistema político construído pela elite e para a elite. Ele faz parte de um sistema que se retro-alimenta e se perpetua a partir de nebulosas operações onde o poder é exercido pelos melhores “players” que usam da chantagem, do dinheiro e da intimidação para se manterem no topo da cadeia alimentar da política nacional. Vez ou outra um “player” se destaca e ele se torna O Coiso, neste momento, o papel é ocupado por Eduardo Cunha.
Como tudo que não presta em nosso país nosso sistema político é eivado de hipocrisia: funcionalmente é um dos melhores e mais modernos do mundo. Há uma profusão de partidos políticos e teoricamente todos podem acessar as instâncias de poder da nação. Qualquer cidadão pode se candidatar e se filiar ao partido político de acordo com sua preferência ideológica. Temos uma urna eletrônica que agiliza o processo eleitoral e nos possibilita que, horas depois de encerradas as votações se tenham os resultados consolidados em todo o país, excetuando-se aqueles que têm fuso horario diferenciado.
No entanto, basta um olhar minimamente acurado para se perceber que há algo errado nesta “democracia” à moda brasileira. A diversidade do povo brasileiro não se reflete nas instâncias de poder. Verifica-se que o poder no Brasil é exercido por homens, brancos, cristãos e heterossexuais, o que denota, portanto, uma brutal distorção entre a lógica e a prática da representação política em nível nacional.
É neste contexto que Eduardo Cunha surge no cenário político décadas atrás e se coloca como o grande player da vez, operando nos subterrâneos do poder até emergir como O Coiso que depôs uma Presidente e em seu lugar colocou uma rêncula de bandidos da pior espécie.
Eduardo Cunha, como o maior dos players que é, joga com a lógica da impunidade e espírito de corpo das elites para poupar seu mandato, sua sombria zona de influência e poder, para cada vez mais retro-alimentar o sistema que o criou e que perpetua sua estrutura de funcionamento desde o aporte das primeiras caravelas às costas brasileiras.
Portanto, é ingênuo e infantil acreditar que a renúncia de Eduardo Cunha pressuponha a ele e a seu grupo político algum tipo de perda. Ao tentar se colocar como vítima de uma perseguição e se mostrar como um homem que se emociona perante o país que o execra, ele mais uma vez tripudia e desrespeita a nação como bom cinico que é. E venhamos e convenhamos, o cinismo é predicado absoluto ao bom bandido e o Coiso é o melhor entre os melhores.
Que o inferno, se é que existe, o tenha um dia num mal lugar.
Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador de Nacional de Política Institucional do CEN
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