“Revela quem somos”, diz diretor de doc sobre escravidão em SP nos anos 30

Mariane Zendron
Do UOL, em São Paulo

Foi numa aula sobre a Segunda Guerra Mundial que uma aluna do professor Sidney Aguilar levantou a mão e disse que o símbolo da suástica estava cravado em vários tijolos da fazenda de sua família, no interior de São Paulo.

A revelação deu início a uma pesquisa de mais de mais de 10 anos em que Sidney descobriu que dezenas de crianças negras foram transferidas, na década de 1930, de um orfanato do Rio para a tal fazenda. Lá, trabalhavam sem remuneração, ou seja, eram escravizados.

A história, no mínimo incômoda, foi transformada no documentário “Menino 23”, em cartaz em São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Recife. “Incomoda porque somos nós. É muito impressionante como nós nos reconhecemos nesse filme”, diz o diretor Belisario Franca em entrevista ao UOL. “Esse filme revela um lado do Brasil que não é louvável, mas se a gente quer se entender como nação, é bom que a gente veja esse lado que não é glorioso”.

Quando chegava à fazenda, o nome da criança era substituído por um número. 23 era o de Aluisio Silva, principal personagem do documentário. Seu Aluisio morreu no final de 2015, aos 96 anos, mas conseguiu compartilhar todas as memórias daquela época. Essas memórias de Seu Aluisio, assim como de Seu Argemiro Santos, outra vítima do trabalho escravo da fazenda, não saíram facilmente. “Trazer à tona memórias traumatizantes é sempre dolorido. Isso tem que ser feito com cuidado, com tempo e estratégia”. A estratégia usada foi a da materialidade. A cada foto, documento mostrados a Seu Aluísio, a história ia se revelando.

Em um dos momentos, Aluisio é convencido a voltar ao orfanato, de onde foi tirado aos dez anos de idade. “Foi um momento muito forte porque você vê claramente a memória inundando aquele homem. A gente quase fisicamente sentia o que estava acontecendo com ele. Embora dolorido também há alívio porque poder falar é poder ser escutado. Essa memória que é privada passa a ser coletiva”.

A versão dos donos da fazenda

A fazenda em questão pertencia à família dos Rocha Miranda, uma das mais poderosas da época. Eram donos de bancos, empresas de transporte, hotéis de luxo e propriedades rurais. Segundo as pesquisas, faziam parte do ultraconservador movimento integralista brasileiro e mantinham relações estreitas com os nazistas.

O diretor afirma que a família não quis se pronunciar sobre o caso. Na internet, Mauricio Rocha Miranda, neto de Renato Rocha Miranda, um dos donos da fazenda criou um blog e fez vídeos em que contesta a versão de Sidney e Belisário e chama o documentário de sensacionalista. “Nomear o horror é muito difícil, porque quando você nomeia, deve fazer algo com aquilo. É uma questão ética”, diz Belisario.

O documentário, exibido no Cine Ceará deste ano, dá o panorama histórico da época que mostra como tudo isso foi possível mesmo 50 anos depois do fim da escravidão. Estão presentes a relação com o passado colonial, o passado escravista, a questão das adesões aos regimes autoritários, o governo Vargas e a bancada eugenista no congresso, que tinha como objetivo o “branqueamento e a regeneração racial”.

O filme sobre o passado toca no presente e olha para o futuro, segundo Belisário.  “Hoje no século XXI, o menino é assassinado pela polícia. As permanências estão aí. A naturalização daquelas práticas ainda estão presentes”, diz.

“Menino 23” pode ajudar ainda a detonar o mito de que no Brasil não há racismo. “O mito da democracia racial foi uma das piores coisas que aconteceu ao Brasil. De cordiais não temos nada. Somos uma nação violentíssima. Olha o estado das nossas prisões. Olha como tratamos os direitos básicos. A gente continua a patinar e patinar interessa a quem? Temos que pensar nisso”.

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