Ser branco no Brasil é garantia de estar acima de qualquer suspeita


Episódio de racismo, claro e evidente, envolvendo apresentador e cantora Ludmilla comprova como a sociedade brasileira ainda não aceitou a liberdade do povo negro

Por Alexandre Parrode, no Jornal Opção

A cantora Ludmilla foi vítima, na última semana, de mais um episódio lamentável do racismo brasileiro nosso de cada dia. Não bastasse ter que se provar todos os dias como uma cantora de sucesso — pois é isso que ela é, gostem ou não de seu trabalho —, teve que ouvir um apresentador, ao vivo, chamá-la em cadeia nacional de “macaca”.

Pode parecer uma postura única, pessoal, mas a verdade é que afirmações como essa estão em todos os lugares, a todo tempo, e passou da hora de expor a ferida. Antes de escrever este texto, ponderei bastante se um homem branco e de classe média teria legitimidade para falar sobre racismo, preconceito e o sofrimento do povo negro que perdura ainda hoje no país. Cheguei à conclusão de que, mesmo que nunca fui e jamais serei vítima, não posso deixar de engrossar o coro contra uma postura inaceitável de parte da sociedade que acha que a luta é “mimimi”.

Primeiramente, a atitude da cantora, que é negra e nasceu pobre, pode ser questionada. Ao que tudo indica, ela se recusou mesmo a atender alguns fãs em uma praia no Rio de Janeiro, disse que se chamava “Kátia” e virou piada na internet. É isso. Foi estúpida, o sucesso lhe subiu à cabeça, está deslumbrada… Todas essas críticas são válidas, embora possam não traduzir toda a realidade da história. Agora, chamar uma mulher negra de macaca? Criminoso.

No entanto, o comentário apenas expõe uma dura realidade, que é enfrentada todos os dias por milhões de negros. Exemplos não faltam para comprovar como um branco no Brasil, além de mais oportunidades, ainda tem a prerrogativa de estar sob qualquer suspeita. A filtragem racial (termo utilizado por pesquisadores norte-americanos que definem a tática policial de abordar um indivíduo só por causa da cor da pele e uma vaga suspeita de um comportamento delitivo) é gritante. Eu nunca fui abordado pela polícia. Se eu sair à rua de bermudão, camisa cavada, chinelos e boné aba reta para trás, é bem provável que nada aconteceria. O mesmo é válido para lojas em um shopping. Nunca terei que me preocupar em colocar uma “roupa mais arrumada” para não correr o risco de não ser atendido.

Um país que conviveu mais de três quartos de sua história com a escravidão, não pode minimizar uma “piadinha”, um “comentário inocente”, pois a banalização do racismo faz com que expressões do tipo “macaco”, “negão”, “mulata” e tantos outros tornem a inferiorização do negro aceitável. “Não tem nada demais nisso. A sociedade está ficando chata. É a geração do politicamente correto”, dizem. É claro que quem nunca temeu sair de uma loja e ouvir o alarme disparar não consegue entender o que é o racismo institucionalizado. Não entende que existem evidentes privilégios aos de pele clara. Ou alguém acha que eu, como jornalista, cheguei a uma pauta e o entrevistado se sentiu desconfortável pela minha aparência? É notável a facilidade que tenho para ser bem recebido, como inspiro confiança e tenho uma empatia natural. Infelizmente, minha cor tem muito a ver com isso.

Blogueiro e um dos ativistas mais aguerridos que já li, o professor da UNEafro Douglas Be­chior resume muito bem a dura realidade brasileira, ao dizer que há uma desigualdade racial tão gritante, que tentam responsabilizar os negros por sua própria exclusão, com o infame discurso da “meritocracia” e da “igualdade”. Dizem que os próprios negros se diminuem ao querer cotas, Dia da Consciência Negra, punição severa aos racistas…

Vejamos: se todos somos iguais, por que 76% do grupo dos mais pobres do Brasil (que tem renda média de R$ 130 mensais) são negros? Por que 61,6% da população carcerária brasileira são negros? “Ah! Alexandre, porque os negros são maioria da população”. Sim, é verdade. Mas, por que mesmo que apenas 12,8% dos universitários são negros? Por que, entre os mais ricos do Brasil, apenas 17,1% são negros? Dados que podem, e são, questionados por racistas e os relativizadores do sofrimento alheio. A sociedade não pode fechar os olhos para um problema tão grave, que perdura — e ganhou palco nas redes sociais. Os 944 casos de injúria racial registrados em 2015 devem servir de exemplo e combustível para que a cantora Ludmilla persiga seu agressor e, se preciso, o coloque atrás das grades.

Não será fácil desconstruir todo o racismo que, desde criança, nos foi introduzido. Aprendemos, desde cedo, que o belo, o perfeito, está sempre relacionado ao branco. A princesa da Disney é tão branca que chega a ser como a neve. É inacreditável que a primeira mulher negra a estampar a capa da Playboy Brasil tenha sido em 2016. Isso mesmo: 2016. Após 41 anos desde sua fundação, a revista masculina mais famosa do mundo — que foi reiteradamente acusada de objetificar as mulheres, ressalto — estampou a atriz Pathy Dejesus em agosto do ano passado. Mesmo que o exemplo seja questionável, serve como amostra de que, até onde o machismo impera, a mulher negra é marginalizada.

Sem contar nas diversas tentativas de aproximar o negro do branco: criando nomenclaturas co­mo “pardo”, “mulato”, “moreno”, como citei acima, em um movimento flagrante de “clareamento” da pessoa, como se isso lhe conferisse mais humanidade. A verdade é que, independente do tom de pele (para surpresas de muitos, não existe só um tom de negro, da mesma forma que existem tons de branco), a maneira como o negro é enxergado confirma que o racismo é um debate sócio-político, no qual há uma evidente luta de uma parcela da população que, há décadas, quer ser reconhecida de maneira igual. Não por meio de leis — que ajudam e legitimam, ainda mais, a causa —, mas principalmente pela sociedade como um todo.

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