Sobre amor e cor

“Ó praí meu olho como já fica”. Carla Akotirene, 36, não é mulher de passar despercebida. Só de estar ali sentadinha esperando, depois de comer uma fatia de bolo e tomar uma Coca-Cola, já se mostra deslumbrante. A conversa começa em meio a uma música melosa que toca no rádio e a primeira frase que ela diz, essa que chama a atenção para seus olhos marejados,  soa como uma nota dissonante. “Sou alguém que nunca foi escolhida para viver uma relação de amor”. De todas as razões possíveis para ancorar um dizer tão duro, Carla acredita que uma pesa mais que as outras. É uma mulher negra.

Ela se envolveu afetivamente pela primeira vez aos 18 anos, quando deu o primeiro beijo. “Morria de medo, porque achava minha boca grande e pensava que ninguém ia querer me beijar”.  Depois, vieram outras histórias, mas, olhando em retrospectiva, pensa que esteve sempre só. Ora porque viveu relacionamentos que eram monogâmicos só para ela, ora porque se viu incapaz de corresponder à imagem que faziam dela.

Busca, ainda, uma explicação. “Sou uma mulher bonita, tenho mestrado, estou no doutorado, tenho autonomia financeira. E os caras que chegam para mim, depois de um tempo, passam a achar que sou preta demais, que passo uma ideia de força… Olham para mim buscando um arquétipo de atleta sexual”.  Seu último relacionamento sério foi há quatro anos.  Lembra de ter perguntado ao ex-namorado o porquê de ser tão duro com ela. “Porque você aguenta”, ele respondeu. “Acho que quanto mais preta, mais pigmentada a pele, pior o tratamento”.

Carla começou a notar que sua solidão estava acompanhada em reuniões com companheiras do movimento negro. Queixavam-se de não encontrar companhia, ou reclamavam do comportamento machista dos parceiros. Em seu trabalho como assistente social de uma unidade de pronto-atendimento no subúrbio, também passou a colecionar recusas de homens que não se dispunham a acompanhar suas mulheres que caíam doentes. “Os homens negros, que são os escolhidos por nós, tiveram sua masculinidade deformada pelo racismo a tal ponto que boa parte dos lares das mulheres negras é atravessada pela violência doméstica”, diz, com seu jeito de quem não tem tempo para gastar com rodeios.

Hoje, ela entende sua solteirice  não como um lugar de vitimização, mas de posicionamento político. “Toda vez que a gente rompe uma relação marcada pela subjugação, passa a se olhar no espelho para se cuidar, para tratar dessas feridas emocionais”.

Preterimento

As discussões em torno do preterimento da mulher negra saíram dos espaços privados e vêm ganhando força na internet. Em abril, a poeta e professora de teoria da literatura  Lívia Natália Santos, 36, que dá aulas na Ufba, publicou num blog um texto intitulado “Eu mereço ser amada”, no qual se debruça sobre o tema.

Lívia conta que a ideia partiu de conversas com amigas. Uma delas chegou a dizer que não queria mais se envolver com homens negros, porque eles seriam “educados para amar mulheres brancas”. “Existe ainda um perfil de mulheres para casar e outro para ter sexo. E há essa exigência de que as mulheres negras sejam sensuais, disponíveis. Nós não fomos ensinadas a nos pensar como bonitas e desejáveis para além do sexo”. Na adolescência, ela teve dois namoricos rápidos, com brancos, mas só adulta percebeu como eles a escondiam. “Eu estava ali, mas não podia beijar, não podia abraçar”.

Quando textos como o que a professora publicou surgem na internet, muitos comentam que isso não passa de mi-mi-mi. Que o amor é maior que a cor da pele. E que ninguém aguenta mais essa história de tudo ser racismo. Lívia não altera muito o semblante ao ouvir esse tipo de argumento. “A sociedade se sustenta em estruturas sexistas, racistas, homofóbicas, gordofóbicas. Essa ideia de que o amor se dá numa nuvem, de que as pessoas se veem pela primeira vez e se apaixonam perdidamente… Não é assim. O amor é uma construção”.

Há dois anos ela está num relacionamento, mas segue botando o dedo na ferida. Coloca os homens negros na berlinda não porque os ache piores que os brancos, mas porque são seu objeto de interesse. “Percebo que quando eles se relacionam com mulheres brancas, as tratam de uma forma diferente. Chamam de princesa, minha querida… São meneios quase subservientes. Com a mulher negra, querem traçar uma hierarquia diferente, de superioridade”.

Para Márcia Macedo, que pesquisa mulheres que chefiam famílias no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), da Ufba, não se trata de “culpabilizar o homem negro”, mas de “mostrar que ele faz parte de um processo histórico de perpetuação do sexismo racializado”.

Por dez anos, a socióloga baiana Ana Cláudia Pacheco pesquisou o tema da solidão das mulheres negras. Em 2008, ela defendeu na Unicamp a tese Branca para casar, mulata para f…. e negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador. Além de apontar causas históricas para o problema – que passam pela poliginia na África e pela escravidão no Brasil -, a pesquisadora mostra como as mulheres negras ao longo das décadas se casam menos e mais tardiamente que as brancas e como os casamentos inter-raciais acontecem com mais frequência entre homens negros e mulheres brancas do que o inverso.

Reivindicação Política

Em 2013, o trabalho virou o livro Mulher negra: afetividade e solidão (Edufba). “O que percebi nas narrativas das mulheres com quem conversei é que quanto mais pretas, com as características  mais acentuadas –   nariz mais largo,  cabelo mais crespo,  corpo mais arredondado – maior era a rejeição dos parceiros”.

Em Salvador, 32% das mulheres brancas com mais de 20 anos são casadas e vivem com os maridos, contra 22% das mulheres pretas, de acordo com o Censo de 2010. No Brasil, os números variam entre 43% (brancas) e 30% (pretas).

Ana Cláudia, que dá aulas na Uneb, acredita que é importante demarcar a reivindicação do casamento como um posicionamento político, à similaridade do que acontece com a população LGBT, mas se preocupa em não colocar a solidão num lugar de vitimização. “Essas mulheres passaram por histórias terríveis na adolescência, mas ao longo da vida reelaboram suas vivências, se fortalecem com educação, trabalho, redes de amizade, religião”.

A pesquisadora está se “deliciando” com o fato de que toda essa discussão esteja vindo à tona, mas reconhece que o tema permanece tabu até mesmo entre as organizações do movimento negro, consideradas machistas por alguns. Carla conta que deixou de frequentar espaços “mistos” (com homens e mulheres) depois que caiu na “asneira de dormir” com um dirigente. “No dia de uma reunião, ele virou e falou: ‘Tira tanta onda de feminista e terminou na cama de quem?'”. Procuradas pela Muito, algumas lideranças se recusaram a falar, mas houve também quem se dispusesse ao diálogo.

Jerônimo da Silva, um dos diretores nacionais da Unegro, diz que já discutiu a temática na organização, mas admite que o movimento carrega ainda “o machismo da nossa sociedade patriarcal”. “Demandas como essa acabam ficando em segundo plano, mas estamos sensíveis para entender e atuar mais nessa frente”. No decorrer da conversa, ele lembra que alguns militantes  costumam se relacionar com mulheres brancas. “Particularmente, acho uma incoerência. Entendo que o homem negro é livre para escolher com quem irá se relacionar, mas se luto por afirmação, por que não escolher uma mulher negra?”. De todo modo, ele acredita que está em curso uma mudança de comportamento pela via da educação e reflexão sobre o próprio racismo. “Essa evolução é visível”.

Imbuído neste processo, Valdo Lumumba, do Partido Popular de Liberdade de Expressão Afro-Brasileira (PPLE), define-se como um “machista em desconstrução” e diz ver “maturidade” nos discursos das mulheres negras sobre as particularidades dos seus relacionamentos afetivos. “Creio que é algo que precisa ser dito, mesmo que muitos homens não gostem de ouvir. Não é possível transformar nenhuma situação se os dois lados não estiverem envolvidos”. Ele também conta que costuma valorizar as mulheres do seu “grupo racial”, mas que “sexo e amor não têm fronteiras”.

Valdirene Boaventura, 34, também acredita que amor não tem cor. Ela dá de ombros e faz uma carinha de descrédito quando o assunto vem à tona. Empregada doméstica desde os 14 anos, Val não tem lembranças de se sentir escanteada na adolescência. “Tinha era fila na porta. Minha mãe ficava doida”. Quando o pai foi embora de casa, era ainda uma menina. Assim que teve uma oportunidade, também saiu de Camacan, onde nasceu, para tentar a vida em Salvador. A promessa era por salário e estudo, não teve uma coisa nem outra. Lembra até hoje o ano da sua libertação: fugiu em 1997.

Paixonite

Com a vida  arrumada no novo trabalho, conseguiu estudar. Na escola, conheceu o pai do seu filho, um homem negro, com quem viveu um relacionamento de oito anos. “No começo, nem queria, achava ele feio”, ri. Val conta que os três primeiros anos foram maravilhosos, mas depois começaram as brigas. Ele só queria saber de arrumar carro, ela sonhava em comprar uma casa. “Era eu quem pagava tudo. Ele nem sabia o preço do gás”. Como se não bastasse, costumava traí-la e dizia que tinha que aceitar, porque nenhum homem iria querer ficar com ela. Um dia, depois de sofrer uma agressão, Val resolveu se separar.

Ela passou um tempo solteira até se envolver com um outro homem, também negro, mas o relacionamento não durou muito tempo. “Ele bebia e se achava o dono do pedaço. Uma vez, insistiu pra gente praticar o ato sexual na sala, com meu filho em casa. Disse que não ia fazer aquilo. Foi humilhante… Resolvi terminar”.

Passados uns anos, Val arrumou outro namorado. Esse era “branquinho”, mais novo, e dizia que estava dando “moral” para ela, uma “nega feinha”. O rapaz não trabalhava, implicava com seu filho e tinha outras mulheres. Val tomou coragem e de novo se “desligou”. “Foi sofrida minha vida amorosa. Quando a gente está carente, se apega a qualquer coisa… São paixonites. Ainda não tive um amor de verdade”.

Mas não pense que esse é um lamento desesperançoso. Val insiste na busca.  Há quatro meses, começou a namorar de novo. “Esse de agora está em análise”, ri. “Mas  homem não é tudo nessa vida”.

Maiara Lourenço, 23, sabe bem que não. A estudante de psicologia é filha de  mãe branca e pai negro. Quando ele morreu, tinha só 9 anos. Cresceu cercada pela família da mãe, inteira branca, e ela mesma não se via  como negra. Na escola, sentia-se diferente, mas não entendia bem  por quê. “Eu andava com as pessoas que estavam à margem do padrão, sabe? Cada um por uma característica diferente”. Na adolescência, não engatou nenhum namoro. Ela até  ficava com alguns caras, mas só em festas, “dessas do tipo ‘cala a boca e beija logo'”.

Quando Maiara desabafava com as amigas, ouvia que precisava ser mais aberta e não escolher tanto. Foi só num grupo da faculdade, a Liga de Relações Raciais (LAR), do qual passou a participar este ano, que a estudante começou a ouvir histórias como a sua e a pensar que não podia ser só coincidência. A descoberta foi acolhedora, mas também angustiante. “Estou ainda entre o choque e o empoderamento”.

Há quatro anos, ela está namorando uma mulher branca, seu primeiro relacionamento sério, vivendo as alegrias e espezinhamentos de dividir a vida com alguém. Seu mundo ficou mais preto, mais branco, mais colorido. Para Márcia, do Neim, o caminho é mesmo esse, não ter uma leitura “monocromática” da vida. “A gente vive numa sociedade ‘comédia romântica’, que dá ênfase à família nuclear, ao casamento. Mas é preciso lembrar que nem todas as mulheres querem um relacionamento. Para muitas, estar solteira é uma conquista”.

fonte: http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1776557-sobre-amor-e-cor

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