Sobre leite, achocolatado, bananas e vitamina.

Antes de eu saber que era meramente comercial, eu até achei interessante e topei a Campanha #somostodosmacacos, #somostodosiguais, #racismonão. Pensei também que teria repercussão instantânea e fim rápido, tipo aquelas típicas campanhas de agência de propaganda e marqueteiro, do tipo que pega no ar e se dissolve rapidamente, como achocolatado e leite.

Todo este debate aconteceu apenas algumas horas depois da atitude irreverente e bem resolvida de Daniel Alves, e a posteriori do post de Neymar. Tive o cuidado de perceber toda a polêmica que se estabeleceu dentro e fora de todos os espaços da sociedade, fazendo com que, até mesmo a presidenta Dilma, através do seu facebook oficial se manifestasse sobre o racismo.

No movimento negro tensões diversas e posicionamentos antagônicos ecoaram, boa parte deles de aversão a postura de Neymar, afinal de contas quem é negro sabe o histórico de veiculação da banana ao racismo, contextualizando assim, para toda a raça uma equivocada, mas ideologicamente propositada, descendência de macacos.

O craque e o seu posicionamento foram colocados na ordem do dia em uma posição de cheque no tabuleiro de xadrez da sociedade brasileira. Sociedade esta que, quando temas espinhosos vem a tona, busca métodos, alternativas, subterfúgios para resolvê-los e raramente o encara de frente e com a seriedade necessária. Com todo tipo de questão prefere agir assim.  Foi assim com a Anistia, com o Direito a Memória e a Verdade, com a Questão Indígena, com as Comunidades Tradicionais Quilombolas e principalmente com a escravidão que ceifou milhões de vidas neste país e o construiu nas costas de toda a ancestralidade negra que insiste em relegar, mas não sem antes aceitar, explorar e difunde o seu caráter e contribuições festivas, tal qual o samba, carnaval, o colorido das roupas e tradições, em sua maioria mimetizados em invólucros brancos, mas quando com agentes negros envolvidos, comumente tratada como cultura de segunda categoria ou folclórica.

Este é o Brasil de sempre, não tem nada de novo nisto. Não podemos esquecer que fomos o último país a abolir a escravidão da face da terra, e a expressão “lei para inglês ver” não é a toa, mas reflete a nossa realidade e estes símbolos perduram e são fatores constitutivos da nossa sociedade até os dias atuais.

O racismo é tabu. É tema espinhoso. Não é tarefa fácil para ser discutido aqui na terrinha. Muito melhor tratar de maneira que evite tensões e distensões. Este é um dos maiores temas que envolvem negros e brancos nesta complexidade social cotidiana em que vivemos, nesta sociedade mal resolvida, neste dilema de tamanho continental, chamado Brasil, país composto por uma sociedade que vive de crise em crise entre Gilberto Freyre, Monteiro Lobato, Machado de Assis, Castro Alves, Sílvio Romero, Rui Barbosa, Carolina de Jesus, Zumbi dos Palmares, João Cândido, Lélia Gonzalez, Carlos Marighella, Zeferina, Abdias do Nascimento, Solano Trindade, Luiza Mahin, Daiane dos Santos, Ronaldinho Fenômeno, Nina Rodrigues, Graciliano Ramos e tantas outros.

Uma sociedade que não quer se olhar no espelho e ver as divergências entre os tantos nomes acima citados, as suas contribuições e equívocos diversos, uma sociedade que não quer se retratar, e quando se olha insiste em querer se ver mestiça no sentido mais abrangente possível. Uma sociedade que mente para intitular-se feliz para si e para os outros. Somos um país dividido tanto nos números do IBGE onde a população negra representa pouco mais de 50%, como nos dados estatísticos do IPEA, onde os negros sempre são mais precarizados do que os não negros independente do que seja.

No geral, entre uma foto e outra, com banana e contra a banana, além dos debates sobre os orifícios onde as mesmas devem ser colocadas, é possível observar o quanto o tema é espinhoso e como ainda não sabemos nos posicionar sobre ele, porque na verdade ainda não conseguimos ter sinceridade para discutir a escravidão e suas dimensões. Este é um grande tabu nacional e internacional, é o resultado de milhões de homens e mulheres que nunca conseguiram se reconciliar, que omitem a verdade, sedimentam discursos e não conseguem dialogar entre si, pois não tem coragem de reconhecer erros e acertos, pelo simples fato de terem construído históricos debates a partir das suas próprias opiniões e desinformações, sem um verdadeiro suporte educacional que remonta a história da África, e historicamente reféns da Europa e de sua formação curricular eurocêntrica e fálica, mantenedora do escravismo baseado na superioridade da raça e de sujeitos que se esforçam diariamente para se transformar a-históricos, acreditando que, se assim o fizerem, desconectam-se com o passado e evitam o envolvimento em polêmicas no presente. Típicos sujeitos que vivem as suas vidinhas e compreendem estes debates como um porre, porque se política, religião e futebol não se discutem, imagine racismo no século XXI?

Melhor simplificar dizendo: racismo aqui não.

Aqui no Brasil os não negros ainda dominam as estruturas, mas é inegável que negros no Brasil tem ascendido às esferas de poder nas últimas décadas, com discursos e posicionamentos políticos que outrora dificilmente teríamos acesso, mas que hoje são veiculados na internet em fração de segundos, por vezes de maneira tão rápida que sequer refletimos acerca deles e nos posicionamos de forma agudizada.

Para mim, as fotos com banana, não representam tamanha consternação, pois sinceramente já passamos desta fase. Não enxergo uma luta do bem contra o mal, do tipo ou estamos de um lado ou de outro, observo, inclusive a partir da égide e preceitos da minha religião o candomblé, que o equilíbrio é tudo. Senão o Caminho,  um caminho de reflexão a ser trilhado no mundo.

No debate em voga, fato notório e pouco difundido é o poder de mobilização que estes jovens negros tem na sociedade. Jovens que estão vivos graças ao futebol. Pois pela quantidade de tatuagens que Daniel Alves tem no seu corpo, estivesse ele em um dos tantos bairros periféricos do Estado da Bahia onde nasceu, facilmente correria o risco de ser preso, alvejado, morto, confundido e tratado como vagabundo e coisas do gênero. Não só ele, mas também Neymar, o goleiro Felipe, o atacante Adriano Imperador, Ronaldinho Gaúcho, Tinga e tantos outros jogadores brasileiros espalhados pelo mundo.

Concretude factível é que com esta atitude Daniel Alves pode se olhar no espelho, compreender e ressignificar a sua dimensão para além das 4 linhas do campo. Neymar e diversos outros jogadores podem  fazer o mesmo, e redimensionar até onde vão seus desabafos, angústias, sonhos, aspirações e decepções. Podem sentir que mesmo com contas bancárias volumosas eles não estão livres ou isentos deste monstro que atinge milhões de pessoas em âmbito mundial diariamente. Daí quais as contribuições que serão dadas para os seus iguais? O que podemos esperar destas personalidades após esta ampla divulgação do racismo?

Podemos esperar que eles façam uma frente e se juntem às entidades do Movimento Negro lutando coletivamente para manter vivo os negros e negras e uma juventude que sofre um verdadeiro Genocídio neste país?

Pactuaremos lembrar das remoções, das políticas de exclusão e “pacificação” de Territórios Negros como atos de guetização, de racismo ambiental, como também o foi a perseguição aos Rolezinhos? Em pleno século XXI, é possível e constitucional demarcar os territórios onde negros podem ou não adentrar? Em verdade, quantos Amarildos, Claudias, garotos Joel, DG’s  e demais Silvas do nosso cotidiano precisaremos perder para nos atentar a estas tragédias cotidianas?

No mais, o que a sociedade brasileira fará com isto? Postará fotos para a posteridade, ou transformará a realidade? Os apresentadores serão mais sinceros? Os programas nos incluirão? O governo irá mudar sua política e será mais enfático nestas questões em suas mais diversas esferas? Os marqueteiros ampliarão campanhas inserindo negras e negros? O Judiciário terá coragem de mudar o seu comportamento higienista e racista? O legislativo terá coragem de debater as tantas pautas colocadas, a exemplo dos autos de resistência a que tanto denunciamos?

Quanto a sermos macacos ou não, o que sei é da nossa capacidade enquanto movimento negro de ressignificarmos tantas coisas, nomes, descrições, terminologias, inclusive de ser negro, preto, pixaim, macumbeiro, brown, e todos os preconceitos contidos e incutidos nestes termos e tantos outros que reelaboramos, que é claro que me preocupa, mas não me assusta, pois assim nos construímos e reconstruímos a todo tempo.

Ficam alguns questionamentos e quem sabe da união de bananas, leite e achocolatado, possamos vitaminar este país e consumi-lo de maneira mais justa, plural, includente e diversa.

Será que encontrarei algum branco pra bater essa vitamina e dividir a conta da merenda quando não se tem lucro? Enfim, se somos todos macacos eu não sei, mas que somos todos racistas, eu não tenho dúvidas!

Marcos Rezende
Coordenador Geral do CEN

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