Sobre um Mosquito, Mulheres e Aborto

 

Em fevereiro deste ano, a antropóloga e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, Debora Diniz, chegava em Campina Grande, segunda maior cidade paraibana, impelida por um chamado de Melania Amorim, obstetra da região conhecida por suas ações no parto humanizado. “Venha ao meu ambulatório. Já tenho 42 mulheres que deram a luz a crianças com a síndrome neurológica”, dizia a mensagem. Melania se referia à crianças nascidas com desordens associadas à infecção pelo vírus da zika que suas mães tiveram. Na imprensa, as notícias falavam em um surto de microcefalia. Naquela mesma época, a Organização Mundial da Saúde anunciava uma emergência de saúde pública de importância internacional diante do enorme número de notificações de desordens neurológicas associadas ao zika. O Brasil, mais especificamente o Nordeste, era, e ainda é, o epicentro dessa epidemia — que só no ambulatório de Melania já ultrapassa 120 casos a esta altura dos acontecimentos.

Desde então, Debora volta todos os meses à Campina Grande. Por lá, seu trabalho é o de conhecer e registrar as histórias da epidemia a partir de seus protagonistas sertanejos: as mulheres e crianças afetadas, os cientistas descobridores, as médicas cuidadoras, a resiliência de todos para enfrentar a crise “que o Estado brasileiro não controla nem à qual destina políticas públicas adequadas”, afirma. Da vivência da antropóloga, um livro e um documentário foram produzidos. Zika: do sertão nordestino à ameaça global, é uma tentativa de biografar o que acontece no país; Zika, o documentário (disponível abaixo e no canal da Anis no YouTube), é a chance de mostrar o drama vivido por mulheres nordestinas e pobres, que, para Debora, são “as maiores vítimas de uma epidemia que está longe de ser controlada”.

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