Única árbitra negra da CBF faz 16 anos de carreira, mas ainda sofre discriminação

Simone vai apitar nesta quinta-feira o amistoso de preparação para a Olimpíada

— Já ouvi várias vezes em jogos coisas como ‘‘o que essa macaca está fazendo aqui’’? Em alguns casos, o preconceito existe mas ele é velado. Para o negro conseguir um espaço no mercado de trabalho tem que ter muita habilidade para se posicionar — afirma a juíza.

Tendo no seu currículo competições nacionais e internacionais, Simone Xavier revela que entrou na profissão por acaso. Quando ainda era aluna do curso de Educação Física, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), recebeu o convite de um professor que assistiu a um jogo apitado por ela durante uma aula.

— Ele perguntou se eu não queria fazer o curso de arbitragem, que, na época, custava R$ 195 por mês. Para mim era caríssimo. Ele insistiu e conseguiu bolsa de 100%. Eu fui porque assim teria mais uma opção para poder trabalhar — explica.

Apesar de ter concluído o curso, Simone conta que só decidiu seguir a carreira depois de um sorteio.

— É uma carreira muito árdua, mas fiz um pacto com Deus. No último dia de aula, o diretor da escola (Carlos Elias Pimentel) sorteou a camisa que ele usou trabalhando no Campeonato Carioca. Se Deus quisesse que eu seguisse essa carreira, a camisa seria minha. E ela está lá em casa — conta.

Atualmente ela apita a Copa UPP, campeonato que promove a integração social entre moradores e policiais de comunidades pacificadas.

Na Fifa desde 2009

Simone disse que sofreu e ainda sofre preconceito

Simone fez o curso em 99 e se filiou à Ferj no ano seguinte. Em 2007, entrou para o quadro nacional da CBF. Em 2009, para a Federação Internacional de Futebol (Fifa).

Hoje ela concilia os jogos com a atividade de professora de Educação Física. Além do racismo, enfrenta preconceito de gênero e origem:

— Negra e da Baixada. Os homens e até as mulheres acham que a gente não tem capacidade. Sempre que apito no interior, é um quarteto feminino. As pessoas dizem que não vamos aguentar, que a federação é maluca!

Mas Simone não se deixa abater. Dentro ou fora de campo, ela dá cartão vermelho para a discriminação:

— Já chorei no início da profissão, mas aprendi a absorver, senão piro.

O presidente da Comissão de Arbitragem de Futebol do Estado do Rio, Jorge Rabello, a enche de elogios:

— Destaco o comprometimento. Além disso, tem facilidade de atuar nas competições masculinas.

A jovem Beatriz Dantas decidiu ser árbitra por influência de Simone

Juíza já prepara a sucessora

Apesar da bela carreira, Simone já pensa em se aposentar. Sua ideia agora é ajudar a formar novos árbitros. É com esse objetivo que Simone levou a jovem Beatriz Oliveira Dantas, de 21 anos, de volta ao esporte. Ex-corredora, Beatriz trabalhava numa loja de roupas em Belford Roxo. Simone dava aulas numa academia em cima da loja. Quando reencontrou a jovem, a árbitra fez o convite para se matricular na escolinha de árbitros.

— Era um cursinho que dávamos para quem quisesse ganhar um dinheiro extra. Ela fez essa escolinha e, depois, estudou na escola de arbitragem. Já estou preparando a minha sucessora — brinca Simone Xavier.

O reencontro mudou radicalmente a vida de Beatriz Oliveira. Após concluir o curso, ela entrou na faculdade de Educação Física, onde está no quarto período.

— Simone teve uma participação fundamental em todas essa trajetória — agradece a jovem, que já apitou três clássicos na categoria de base do Campeonato Carioca.

Fonte: http://extra.globo.com/noticias/rio/unica-arbitra-negra-da-cbf-faz-16-anos-de-carreira-mas-ainda-sofre-discriminacao-19800037.html#ixzz4FkTptSDd

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