13 de maio – Um retorno na história

No dia 13 de maio de 1888, foi promulgada a Lei Imperial nº 3.353, que declara extinta a Lei de Escravidão no Brasil. Essa data, considerada inicialmente um dia importante para a comemoração do povo preto, foi depois questionada por diversos motivos. Entender quais são esses motivos nos dará uma visão maior sobre a situação do Brasil que vivemos hoje, bem parecida com a condição daquela época.

O que parecia liberdade, na verdade, era uma verdadeira prisão. Os brancos que trouxeram nossos irmãos escravizados em caravelas para o Brasil não estavam abertos a abrir mãos dos seus privilégios e trataram de legislar de tal forma que mantivessem sua posição de exclusividade dentro da sociedade. Dessa forma, o decreto de número 847 lançado dois anos depois, em 11 de outubro de 1890 foi um grande golpe sobre o povo negro, pois proibia a prática da capoeira com pena de detenção.

Vítimas dos mais diversos tipos de violência por anos, afastados de suas famílias, de sua terra e de qualquer referencial sobre si mesmo, sem um projeto de empregabilidade ou de inclusão social, sem receber indenizações, proibidos de cultivar nas terras  do país, apartados de qualquer chance de ascensão social pela legislatura do país e assediados para trabalhar para os mesmos senhores que os escravizaram em troca da possibilidade de dormir nas mesmas senzalas sujas onde sofreram horrores, num cenário de violência física igual ao do período anterior e abuso sexual as mulheres, assim foi o que considerou-se libertação.

Obviamente esse foi um projeto que não privilegiou a população negra e forneceu todos os meios para dar manutenção a situações análogas à escravidão nos anos seguintes e até os dias atuais. Podemos dizer que mesmo com toda a evolução que tivemos hoje, fruto de conquistas das lutas do povo negro, o Brasil ainda está distante de pagar suas dívidas com essa população.

Exatamente 128 anos após a falsa abolição da escravatura, uma  nova manobra política atua como um grande golpe contra o povo negro. No dia 12 de maio de 2016, um dia antes do aniversário da falsa abolição da escravatura, a junção de ministérios pelo então presidente interino do Brasil Michel Temer extingue a SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial), instituída em 21 de março de 2003 com o objetivo de incrementar políticas de reparação das dívidas do Brasil com o povo negro.

O Brasil vê um ministério representado pelo mesmo padrão de 1888, formado por homens brancos. Nessa junção a SEPPIR foi extinta e suas demandas formas somadas a secretaria de Cidadania e Direitos Humanos, cujo atual ministro é o ex-Secretário de Segurança Pública de São Paulo conhecido pelo nível de violência que autorizou a polícia a usar contra movimentos sociais em épocas de protesto e pela invasão de escolas ocupadas por estudantes em São Paulo, comportamento igual ao dos senhores da Casa Grande, instando os capitães do mato a maltratar o povo preto.

O povo preto precisa repensar esse dia com muita sabedoria, quais serão os próximos passos para reconquistar as nossas poucas conquistas nesse caminhar e impedirmos que a relação Casa Grade x Senzala volte a permear em nossa sociedade? Os irmãos da capoeira estão correndo o risco de não poderem mais ensinar sua arte ancestral, por um sistema de academização branca que quer dominar essa arte. A política de drogas leva vários dos nossos a se envolverem com as drogas e a falta de autoestima, causada pelo Apartheid social leva muitos ao crack e as ruas.

É preciso quilombolizar o pensamento. Entender o papel do negro na sociedade e a responsabilidade perante os seus irmãos, ou então a política de extermínio do povo negro que o Brasil não conseguiu impedir até hoje irá avançar ainda mais e nas suas diversas formas. Além das armas dos policiais, somos mortos pela invisibilidade, pela depressão, pelo acesso precário ao sistema de saúde, pelas prisões ilegais, pela política de drogas, pela violência psicológica, pelo salário precário, pelo descaso que causa desabamentos em dias de chuva, pela setorização do nosso local na sociedade e por outros vários métodos que persistem nesses 128 anos.

Pareta Calderasch, poeta, performer e militante do Coletivo de Entidades Negras.

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