Guerrilheiros Urbanos – Porque aquilombar-se é a solução!


Capoeira me chama! E eu me indago: Qual o nosso papel frente as consequências de todo mal que nos encurrala? E, qual a nossa real situação?

Decido atender ao chamado, logo me faço presente na roda sem medo, me achego com malícia e segredo, pronto para interagir, me defender ou defender!

Mas antes faço um pedido, peço que mande os Alabes da Bahia toda tocar um toque de guerra, pois essa é nossa constatação e consciência frente a tudo que vem acontecendo. E dentro do meu pedido exijo para tocar alto, muito alto os atabaques.

Diante desse chamado, reflito que não posso ignorar tudo o que está em volta e me lembro de tudo que passou nas insurgências, não esqueço das táticas e o que significa uma rebelião e subversão contra os ditadores. Imediatamente me vem uma lembrança ancestral que me toma em arrepios de corpo inteiro, mas não é medo. Meu olhar traduzia o reflexo do meu suspense, e os guerrilheiros perceberam onde estava a minha lembrança.

Mais uma vez fiz um pedido, dessa vez para conclamar o exército que morava dentro mim, dentro do meu inconsciente, na minha memória ancestral, no inconsciente coletivo onde reside esta memória ancestral. E pedi para avisar às nossas conselheiras, pois precisávamos ritualizar nosso ato com conselhos, elas vieram e trouxeram iguarias das mais diversas como: bebidas, folhas, vinhos, peixes, muitos peixes, vieram celebrar o nosso ato. Enfim, produziram um banquete inigualável, era uma fonte de energia que faziam:  Juntarmo-nos, AQUILOMBAR-SE!

De repente, o cenário DIÁSPORÍCO nos mostra que estávamos aglutinando tudo o que era nosso, todas as cores, todos os elementos mais simbólicos, todas as músicas, todas as vibrações, os sons, a epiderme, a garra, a resistência, o fenótipo e até nossas angustias, mas de uma forma distante da “afrocentrada, panafricanista” heranças deixadas por vários (as) MÁRTIRES. Com tanta caminhada talvez ainda fazemos como se tivéssemos em terras estrangeiras e desejássemos voltar para o seio da nossa casa ou nossa “terra mãe” (ÁFRICA).

Dessa maneira, mudamos a direção do nosso olhar para aquilo que deveríamos lutar efetivamente. Foi o dia em que descobrimos de forma aquilombada e afrocentrada onde e contra quem deveríamos lutar.

As conselheiras produziram uma imensa fogueira, e iniciavam um ritual com todas as ervas cheirosas e imediatamente estávamos todos envolvidos em um círculo, enquanto as chamas da fogueira produziam todos os formatos mais glamorosos, parecendo o rosto dos nossos ancestrais que lideraram várias insurgências contra opressão em séculos passados.

O nosso aquilombamento durou muitas noites e muitos dias, enxergamos a presença da lua em várias facetas, a querer testemunhar aquela aglutinação, sentimos a presença do vento a dialogar com o fogo, naquela imensa fogueira viva, que insistia em permanecer conosco como se tivesse protegendo e permitindo o equilíbrio com senso de justiça e, como um mestre ancião, nos guarda de uma trágica situação POSSIVELMENTE estaria por vir. Os dias foram passando e rezamos, choramos, comemos, cantamos, meditamos e nos tocamos. Tudo em um ambiente que antes era hostil e dilacerante! Uma atmosfera que era adversa e intragável, uma paisagem que doía os olhos e asfixiava a garganta como uma poeira triste e sombria.

O tempo passou em 21 dias sem percebermos que precisávamos como técnica de sobrevivência havíamos adquirido com nós mesmo, iniciamos novas táticas, novas experiências por meios de troca olhares e saberes, nesse universo que era único, mas que havia durado muito tempo.  Contudo, o necessário para curar nossas chagas, nossas dores e a nossa livre manifestação pela necessidade de estamos juntos

Mudamos todos os ‘comandos’ que antes poderiam ter nos destruído e produzimos uma imensa arte coletiva com os capoeiristas, os sambistas, as quituteiras, os rappers, os militantes, os poetas, os griôs, os marisqueiros, pescadores, batuqueiros, prostitutas, meninos e meninas de rua, mendigos, salteadores e produzimos um recado em forma de discurso, postura e concepção! Salve as cumeeiras de todas as casas, Ilês, Salva e o povo negro em unidade, porque sobrevivemos por nossa própria conta! Somos diversxs e é essa diversidade que nos fortalece na luta diária.

GUERRILHEIROS DO SPRAY

GRAFITEIROS saem sem medo da violência, pois sabemos que todos os dias de pintura são assim, saímos com a sacola cheia de coloridos, cheio de novos horizontes, novas possibilidades e encontramos fuzis sobre nossa cara. Mas entendemos que mesmo que violentem nossos corpos, que nos xinguem, matem nossos irmãos, iremos lamentar de forma veemente, organizada e aquilombada a perda que a cidade terá sem nossas inspirações, sem nosso brilho e nossa arte.

Não podemos permitir aos opressores, prepotentes e racistas conduzirem as nossas vidas, pois somos um número bem maior de insurgentes. Nós temos tudo o que é necessário para elevar os nossos valores mais fortes.

Nós vamos revidar a cada violência, a cada investida mais perversa contra nós, vamos agredir quem nos agride, vamos usar as nossas maiores ferramentas, vamos convocar tudo o que temos reunido contra o sistema que tenta nos invisibilizar, pois não vamos deixar de buscar a nossa arma mais potente, ‘’ uma parede abandonada, uma lata de tinta na mão e os mais dispostos’’.

Se acontecer o pior será sempre uma injustiça contra a cidade, um crime contra os admiradores da arte, o pior pode vir de várias maneiras nós sabemos mais não vamos temer. Pinte a nossa cara, rasgue a nossa pele como animal salivando ao bater no menino que pinta, nós vimos a sua pouca humanidade com pena, pois somos orgânicos e não acabaremos assim fácil. Aliás, impossível acabar com algo em enegrescente MOVIMENTO.

Mas não esqueçam: NÃO CONTEM A NINGUÉM DAS NOSSAS FRAQUEZAS, NEM O DIA DO ATAQUE E NÃO DIGA A NINGUÉM QUE ESTAMOS PREPARADOS/AS para infestar a cidade de linguagens urbanas

Dhay Borges – Coordenador Nacional de Mobilização/ CEN
Júlio Costa – Coletivo de Entidades Negras/ CEN

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