Postagem de disputa machista, gordofóbica, transfóbica e racista durante INTER UFG 2016 gera revolta nas redes

Postagem com placar da pegação nos jogos internos da instituição causa repúdio nas redes sociais pelo conteúdo considerado misógino e racista

Por Augusto Diniz, JORNAL OPÇÃO

“Regulamento Inter UFG 2016.” Esse é o título de uma postagem que circula nesta quarta-feira (25/5) nas redes sociais da internet com uma espécie de pontuação direcionada aos homens das atléticas da Universidade Federal de Goiás (UFG) que conquistarem, ficarem ou transarem com mulheres durante a 10ª edição dos Jogos Internos da UFG (Inter UFG), que acontecem de hoje até domingo (29).

E a tabela de pontos traz diferença de pontos, que diferencia inclusive mulher “casada” de “solteira”, “branca” de “preta”, inclusive de “gostosa”, “que namora”, “pretinha bonitinha” e até “preta feita”. E tem mais: se “casar”, ou seja, for visto andando com a mulher que ficou ou transou durante as festas ou jogos do evento, o homem perde 0,5 ponto a cada meia hora na tabela do “Regulamento Inter UFG 2016”.

De acordo com Bruno Azambuja, responsável pelo relações públicas da B2 Agência, que cuida da organização do Inter UFG, essa postagem já foi analisada pelo evento e “não foi postada por uma pessoa autorizada”. “Nós já tomamos conhecimento da publicação e vamos soltar uma nota de repúdio”, informou Azambuja.

"Regulamento Inter UFG 2016" cria regras de pontuação para cada "tipo" de mulher que o homem beijar ou transar durante o evento | Imagem: Reprodução/Facebook

Leia a nota de repúdio publicada na noite de hoje pela organização do Inter UFG:

Nota de repúdio

A equipe Inter UFG vem por meio desta afirmar que repudia todo e qualquer esquema de pontuação de conotação sexual divulgado em redes sociais! Não apoiamos esse tipo de postura e seguimos afirmando que a 10ª Edição do Inter UFG prezará pelo bem estar, segurança, diversão e acima de tudo o respeito!

Inter UFG

A ex-aluna de Jornalismo da UFG, Amanda Damasceno, disse que esse é um dos motivos pelos quais muitas mulheres têm medo de irem sozinhas a eventos de acadêmicas de faculdades em Goiânia. “Infelizmente o post só reforça o que a gente vê sendo praticado na maioria das festas universitárias.”

Para Amanda, os casos de assédio a mulheres nas festas universitárias é comprovado pela criação de um “regulamento” por homens que frequentam esses eventos. “Há muitas pessoas que acham graça de coisas que claramente são misóginas, racistas e transfóbicas. Aí na pontuação, tem critérios que só provam o quanto a mulher é objetificada e o quanto o machismo está presente em todos os lugares”, afirmou.

A recém-formada pela UFG conta que passou por situação parecida: “Eu mesma fui em um Inter e só fui porque estava num grupo grande. E mesmo assim fui assediada e não foi pouco. E o tipo de gente que compartilha essas coisas achando graça é quem não vê problema em passar a mão em menina, em forçar qualquer coisa porque se a menina foi na festa é porque tá pedindo”.

Ela disse torcer para que nada aconteça, já que o evento desse ano acontece no Centro Cultural Oscar Niemeyer, “um lugar afastado e rodeado de mato” na saída do estacionamento. “Tô rezando realmente pra que tenha mais segurança esse ano, porque se não a probabilidade de ter casos de abuso e violência é bem grande.”

A Coletiva Feminista Nonô, criado pelas estudantes mulheres do curso de Jornalismo da UFG em homenagem à jornalista goiana Laurenice Noleto, publicou na noite desta quarta-feira (25/5) uma nota de repúdio à publicação, sem atribuir autoria a ninguém por não saber de onde veio a postagem.

Leia a nota completa publicada pela página no Facebook:

Nota de repúdio

A Coletiva Feminista Nonô repudia esse tipo de prática discriminatória que, infelizmente, parece ser constante nas atitudes dos nossos colegas de universidade. Não temos confirmação de onde vem o print e nem se a organização do Inter UFG está de acordo com o que é dito nele, mas nossa indignação não diminuirá com a resposta.

Independente de ser a ideologia do Inter UFG ou de um grupo alienado de seus frequentadores, nós, as mulheres da Coletiva, as mulheres da universidade, não aceitamos essa objetificação absurda sobre nós, nossos corpos, nossas vidas sexuais. Não há pontuação que nos defina, pois não somos jogos, muito menos produtos. Há muito tempo a misoginia das festas universitárias vem agredindo e constrangendo mulheres e estamos cansadas disso.

O caráter racista, gordofóbico, transfóbico e machista do print nos causa profunda indignação e asco. Estamos vivendo um momento político em que as mulheres lutam contra a perda de direitos, e ver nossos colegas reiterando a cultura da objetificação de mulheres é revoltante. Nos faz questionar se vocês, universitários machistas, vivem no mesmo 2016 que nós ou se estacionaram na Idade Média.

Não é divertido, não interpretaremos essas ofensas como piada. As mulheres pertencem à rua, à sociedade e disseminar esse tipo de “brincadeira” preconceituosa é uma forma de nos dizer indiretamente que o espaço público não nos pertence. Não vamos aceitar esse desrespeito.

Exigimos respeito no Inter UFG
Exigimos respeito nas ruas
Exigimos respeito na Universidade

Mulheres da Coletiva Feminista Nonô (Jornalismo – UFG)

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