SALVADOR SE DESPEDE DA RAINHA DA NAÇÃO IJEXÁ

Por Vilson Caetano

Estelita Lima Calmon nasceu em 27 de maio de 1919 e foi consagrada aos orixás ijexás ainda criança por uma de suas tias. Filha de Alfredo Antônio Calmon e Maria da Conceição Calmon, conhecida por Maricota de Oxalá, em finais dos anos 40, Mãe Estelita e sua mãe, filha do legendário “candomblé da saúde”, fundado por africanos, chegaram à Severiano Santana Porto, também filho de africanos, apelidado carinhosamente de Sivi.

mãeO candomblé de Severiano de Logun Ede, o Ile Axe Kale Bokum, teve a sua origem no século XIX num nucleo de nagôs ijexás que transitavam entre o centro da cidade e regiões vizinhas como: Queimadinho, Dique do Tororó e Cidade de Palha. Após 1896, parentes destes africanos já haviam se instalados na Peninsula de Itapagipe, seguindo depois para as regiões de Pirajá onde se encontrava Plataforma. Em 1933 têm-se notícias de Pai Severiano dando continuidade ao candomblé “da nação de seus parentes” neste bairro.

Mãe Estelita foi iniciada por Pai Severiano em 1951 e tornou-se “a menina dos olhos dele.” Filha, amiga e confidente, Mãe Estelita passou a provir o Ile Axe Kale Bokun de tudo. Por ocasião da morte de seu pai de santo em 1970, quando foi sucedido por Claudionor dos Santos Pereira, Mãe Estelita tranferiu-se com Tia Maricota para o Ile Axe Kale Bokun a fim de ajudar a Pai Nozinho de Oxun tomar conta da Casa de Logun Ede.

Descrita como mulher forte e combativa, “que botava as mãos nas cadeiras, fazia e acontecia” Estelita de Oyá foi responsável pela consolidação da casa e pela configuração que possui hoje. Aos 97 anos de idade e a frente do Ile Axe Kale Bokum como uma verdadeira Rainha desde 1994 quando Pai Nozinho vem a falecer, Mãe Estelita nos deixou ontem, 11 de junho, após uma vida de entrega e dedicação aos orixás. O Ile Axe Kale Bokun encontra-se em processo de tombamento com base na Lei de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Salvador.

NOTA DO CEN: A Iyalorixá Estelita de Oyá participou do livro Mulheres de Axé, um projeto do CEN(Coletivo de Entidades Negras) organizado pelo Ogã da casa de Oxumarê, Marcos Rezende. O livro  traduz a importância de mulheres que são símbolo de autonomia e superação e que também são herdeiras de um legado, a prova viva da resistência às adversidades impostas pelo regime escravocrata e pelo racismo, mulheres que dedicaram e dedicam grande parte de suas vidas à luta contra a intolerância religiosa tiveram cada uma, à sua época, grandes desafios impostos pela sociedade.

 

 

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