SE PALMARES NÃO VIVE MAIS, FAREMOS PALMARES DE NOVO!

SE PALMARES NÃO VIVE MAIS, FAREMOS PALMARES DE NOVO!
BASES PARA RECONSTRUÇÃO DA NOVA ESQUERDA NUMA PERSPECTIVA DE MOVIMENTO NEGRO

Ao aprovar o afastamento da senhora Presidenta da República Dilma Vana Rousseff, o Senado da República, sacramentou um Golpe de Estado liderado pelos setores mais conservadores de nossa sociedade.

Este golpe, capitaneado pela grande imprensa, por setores empresariais e econômicos, o capital internacional, o Parlamento e o Judiciário marca o fim da política de conciliação de classes estabelecida por Luiz Ignácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores quando da assunção ao poder em 2003.

Esta política de conciliação de classes fracassou, basicamente porque as elites brasileiras são, desde que as primeiras caravelas chegaram no Brasil, detentoras de privilégios aos quais são incapazes de abrir mão em um país que tem suas bases fundantes no mais cruel e longo processo de escravidão da história humana, sendo, assim, portanto, impossível qualquer tipo de diálogo, negociação e acordo com essas elites.

Fracassada, pois, a política de conciliação de classes com o fim do governo Dilma e o natural enfraquecimento do PT, eis que urge a necessidade de reconstrução da nova esquerda sobre bases diferentes daquela que se constituiu a partir dos anos de 1980 com o PT à frente.

É notória a percepção que esse modelo de esquerda se deteriorou, envelheceu e, com ele, as lideranças políticas que, se não envelheceram juntas, tornaram-se anacrônicas e, portanto, já não servem mais como lideranças políticas no limiar destes novos tempos que se iniciam.

Há que se dar o devido crédito ao período Lulo-petista que levou a cabo políticas de inserções sociais e econômicas dos setores mais excluídos de nossa sociedade, notadamente mulheres, negras e negros, jovens,  lgbts, indígenas, entre tantos outros setores que demarcam o limite estabelecido entre a última fronteira civilizatória permitida pelo conservadorismo, inserindo-se aí as grandes periferias, os espaços negros, as favelas, locais onde a violência impera e o braço forte do Estado reina.

A contradição se dá aí: ao mesmo tempo em que o lulo-petismo construiu uma exitosa política de inclusão destes setores excluídos, não conseguiu reduzir a atuação repressora do Estado nos territórios habitados por essa massa excluída, nunca se matou tantos jovens negros, o Brasil tornou-se líder nas estatísticas de violência contra gays, lésbicas, travestis e transexuais, as mulheres continuam sendo cada vez mais espancadas e mortas pelo machismo cotidiano e nunca se viu tantos homens e mulheres negros nas prisões, pois este é um país que pune, e pune muito, o negro, a negra e o pobre. E é destes setores e destes territórios que deve emergir a nova esquerda com cara e jeito de povo, uma esquerda que rompa com os conceitos eurocentrados, numa perspectiva quilombista, pan-africanista e pan-americana, capaz de nos revelar e explicitar em que raízes fomos edificados.

Uma esquerda que surja de nós e para nós, rompendo, portanto, com a noção de que precisamos do olhar do outro para formarmos nossa identidade, pois ela é construída a partir das casas de terreiro, das rodas de samba, das favelas e das periferias das grandes cidades, dos quilombos e dos rincões das zonas rurais, e do pertencimento à negritude trazida nos navios negreiros e perpetuada no culto aos Orixás, Inquisses e Voduns e inspirada no legado de luta e resistência de nossos ancestrais; nas matrizes indígenas, nas florestas, rios, sertões e agrestes onde aprendemos a resistir e a sobreviver.

Precisamos resgatar o espírito comunitário que existia em fins dos anos de 1970 e início dos de 1980 que permitiu o surgimento das lideranças que construíram essa esquerda ora derrotada, sem abrir mão dos marcos tecnológicos que hoje temos às mãos para, aí sim, fazer ecoar nossa voz e propagar nossa visão de mundo a partir deste novo cenário.

A nova esquerda deve ressignificar os conceitos marxistas que apenas consideraram questões relacionadas ao mundo do trabalho e do capital, ignorando as condições de diferença e opressão vividas por nós negras e negros, e resgatar valores e conceitos mais próximos  como o pensamento de teóricos/as negros/as e latino-americanos, que pensam a condição de subalternidade a partir da perspectiva de subversão da condição de colonialidade.

Devemos encarar como ameaça real o aparelhamento do Estado pelos setores fundamentalistas, conservadores e intolerantes e estabelecer uma frente de luta contra isso.

É necessária a compreensão que devemos rever uma série de conceitos, entre eles o de que o acesso ao sistema educacional é suficiente para a mobilidade social dos mais pobres, quando, em verdade, é nas salas de aula que se reproduzem as lógicas conservadoras e opressoras que permeiam nossa sociedade. É necessária a compreensão de que instituição escolar não é libertadora como pensávamos; na Era da Informação, dominar os códigos e as ferramentas de sua produção, torna o conhecimento libertador, e deve ser essa a ferramenta estratégica nesta nova etapa de nossa luta.

Precisamos compreender que somente sair da pobreza não nos basta; a miséria absoluta não interessa ao capitalismo; interessa, às nossas elites, a manutenção do desejo de uma vida burguesa, mas não sua plena obtenção pelas classes pobres, essa é sua estratégia de controle e dominação, lutemos contra esta dominação. Tornemos essa a nossa maior bandeira de luta.

Devemos pensar a nova esquerda a partir da crise de representatividade em que nos deparamos; vivemos a contradição entre representação e representados. Nossas instâncias legislativas não refletem a diversidade do povo brasileiro, sendo basicamente conformadas por homens, brancos, de nível superior, heterossexuais, cristãos e de classe média alta. Esta crise de representatividade é derivada de um modelo político-partidário envelhecido, elitista e, por conseguinte, excludente, pois não permite que, sem poder econômico, ninguém oriundo das classes populares e de movimentos comunitários, possa se candidatar, e se eleger, sem se submeter aos grandes acordos que norteiam nossa política. É importante, pois, romper com esse modelo e constituir um novo que efetivamente emane do povo, como comitês e câmaras comunitárias que façam a gestão política a partir do território e cada vez mais próximas das necessidades reais do cidadão e da cidadã comuns. Repensar como nos representaremos e se haverá modelos de lideranças capazes de falar pela coletividade.

Quando Zumbi e Dandara reinaram sobre Palmares, este era, e foi até hoje, o único território livre da história do Brasil. O “Reino das Três Raças”, como ficou conhecido; Palmares é a referência e Zumbi e Dandara são os exemplos a nos inspirar neste momento em que estamos nós por nós mesmos e esses exemplos moverão nossa luta que deve se pautar em duas frentes: a denúncia do golpe e o aprofundamento da democracia, equitativa, libertadora e solidária. A unificação das bandeiras de luta; a ampliação dos arcos de aliança com setores não conservadores; a inserção de novos temas em nossos discursos e, não menos importante, a perspectiva de resistência aos recuos das agendas sociais devem ser os principais aspectos dessa etapa de luta que ora se inicia.
Estaremos nas ruas, que são nossas trincheiras, nos entenderemos enquanto povo que somos e não vamos nos abater diante do poder de nossos adversários.

Destruíram Palmares e assassinaram Zumbi e Dandara, mas não destruíram a ideia. Faremos Palmares de novo, com a força dos nossos ancestrais.

COLETIVO DE ENTIDADES NEGRAS – CEN

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