Uma por todas e todas por uma: a sororidade contra a competição feminina

Eu, como mulher, já me senti desconfortável ou pressionada pela competição feminina. E não tem nada mais comum: é quase rotineiro, no mundo feminino, a preocupação com a sua imagem e postura em comparação com a de outras garotas. Durante a adolescência, quando ainda não conhecemos muito sobre nós mesmas e nos encontramos numa jornada diária de auto-descoberta, é quando nos sentimos mais pressionadas a competir com as meninas com as quais convivemos. Do cabelo mais bonito à roupa mais estilosa, nos encontrávamos em uma eterna batalha para desmerecermos as qualidades das garotas que desgostávamos e enaltecermos as nossas próprias.

Mean Girls - a mais clássica e específica definição de competição feminina
Mean Girls – a mais clássica e específica definição de competição feminina

Quem nunca ouviu ou disse um “Nossa, você viu a roupa dela hoje? Ela está muito zuada” ou “Ah, essas meninas mais ‘popularzinhas’ podem ser bonitas, mas a verdade é que são todas rodadas”, que atire a primeira pedra. Apesar de extremamente negativa para a convivência como semelhantes, a competição feminina continua a ser estimulada e perpetuada na educação dos jovens. Desde a própria criação, onde são ensinadas a entender a mulher como um ser invejoso e traiçoeiro que nunca será capaz de fazer um elogio sincero, até a convivência adulta, onde colegas e familiares repetirão jargões como “Os melhores companheiros para fazer compras são amigos homens ou gays, porque outras mulheres nunca te dirão a verdade”, a sociedade constrói, tijolo a tijolo, uma enorme barreira entre as mulheres, como forma de inviabilizar sua aliança e coexistência afetiva.Mas, qual é a vantagem, de verdade, de nos colocar umas contra as outras? O que ganhamos com isso? E, aliás, como se ganha nessa picuinha toda? Nenhuma dessas perguntas tem resposta concreta. Por quê? Muito simples: porque a própria competição para a qual somos estimuladas é infundada. Colocar as mulheres umas contra as outras é uma das formas mais simples e eficazes que o patriarcado encontrou de nos controlar. É o velho “separar para reinar” maquiavélico aplicado à sociedade de hoje bem debaixo do nosso nariz, nos expondo e fazendo consumir uma quantidade absurda de produtos que estimulam essa conduta.

Grande parte da educação das meninas para a competição faz parte do seu contato com a figura feminina criada pela indústria audiovisual. Desde pequenas, somos acostumadas a entender outras meninas como concorrentes, adversárias que estarão a todo momento esperando por uma chance de nos colocar pra baixo. É quase como se a própria existência como mulher fosse rondada por um espectro: o espectro da inveja. Nenhum elogio nunca será verdadeiro, nenhum desentendimento tem outra origem senão o descontentamento de uma com o sucesso da outra, e ninguém no universo pode nos afirmar que somos vencedoras dessa eterna batalha. Ninguém, a não ser… um homem! Justamente por ter sido criada para colocar as mulheres contra si, são os homens que saem vencedores nessa brincadeira toda. Se veem disputados, desejados, e são muitas vezes os únicos que podem apontar quem é ou não é vencedora nesse tipo de competição. Inclusive, a expectativa masculina para a disputa em torno de sua companhia por parte das mulheres é o que causa, muitas vezes, a indignação quando outras mulheres afirmam não ter desejo por eles.O que mais precisamos, hoje em dia, é educar as meninas para o conceito de sororidade: a ideia de que não precisamos nos reafirmar como melhores umas que as outras para ninguém, unida à noção de que devemos conquistar juntas e, como uma só, nossos direitos enquanto mulheres. Com a ascensão de coletivos feministas e o empoderamento diário de várias mulheres que se conscientizam sobre seus direitos, tem crescido o contingente feminino que não vê, em suas semelhantes, uma ameaça à sua feminilidade. Embora ainda sejam poucas em relação ao contexto geral da população, é de extrema importância que continuemos a nos informar e nos unir, de forma que possamos quebrar, tijolo a tijolo, essa parede que foi construída entre nós.

Fonte: http://www.lado-m.com/uma-por-todas-e-todas-por-uma-a-sororidade-contra-a-competicao-feminina/

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